08 de novembro, 2004 - 23h06 GMT (20h06 Brasília)
Edson Porto
enviado especial a Ramallah
Centenas de palestinos tomaram nesta segunda-feira o centro de Ramallah, a principal cidade palestina, para protestar contra a mulher do líder palestino Yasser Arafat, Suha.
“Nós viemos para a rua para mostrar que queremos que nosso líder se recupere e para protestar contra o comportamento de Suha”, afirmou Abuali Muqbea, membro do Conselho Nacional Palestino.
Suha Arafat irritou os palestinos depois de dizer que a delegação formada pelo ministro palestino das Relações Exteriores, Nabil Shaath, o primeiro-ministro, Ahmed Korei, e o vice de Arafat, Mahmoud Abbas, tinha como objetivo visitar Paris para "enterrar Arafat vivo".
Pouco tempo depois de redes árabes de TV e rádio transmitirem as afirmações de Suha, as autoridades desistiram da viagem, para mais tarde voltarem atrás e confirmarem a ida à Europa.
A intenção da delegação é descobrir detalhes sobre o estado de saúde de Arafat e tentar obter informações de forma independente – pelas leis francesas, a mulher de Arafat tem o direito de escolher quem pode visitá-lo ou receber informações de seus médicos.
Ausência
Suha é muito criticada nos territórios ocupados por ter se mudado para Paris desde o começo da intifada (a revolta palestina) há quatro anos e deixado Arafat para trás em seu quartel-general de Ramallah.
Agora, após essa ausência, eles acreditam que ela não tem mais o direito de decidir sobre o futuro do marido, que é considerado um símbolo da luta por um Estado independente.
“Suha está escondendo a situação das pessoas”, afirmou o estudante Raef Safi, durante a manifestação em Ramallah. Ele acredita que Suha está mentindo sobre a situação de Arafat.
"A família palestina é muito mais importante que o núcleo familiar de Arafat", afirmou o ministro da Juventude e Esporte, Saleh Altamary.
Fiasco
Altamary fez suas declarações do lado de fora do quartel-general de Arafat, onde várias autoridades estavam discutindo o que fazer diante da nova e inesperada crise.
Para o analista político Said Zidani, ninguém estava preparado para a atitude de Suha.
"Isso não era esperado e é muito estranho. Não sabemos exatamente por que ela está fazendo isso, talvez seja ressentimento em relação à atual liderança política", afirmou o analista, embora ele mesmo pondere que ela nunca teve um papel político entre os palestinos.
Said Zidani acredita que ainda é cedo para saber exatamente qual será o impacto de todo o processo. No entanto, ele acredita que a situação poderá até beneficiar a nova liderança.
"Com certeza, esse fiasco não vai atrapalhar o apoio popular (à nova cúpula) e pode até ser que ele una ainda mais os palestinos."