08 de novembro, 2004 - 17h52 GMT (14h52 Brasília)
Edson Porto
enviado especial a Ramallah
As declarações da mulher de Yasser Arafat, Suha, contra as principais autoridades palestinas nesta segunda-feira causaram revolta tanto entre políticos como entre pessoas nas ruas dos territórios ocupados.
Suha Arafat disse que a delegação formada pelo ministro palestino das Relações Exteriores, Nabil Shaath, o primeiro-ministro, Ahmed Korei, e o vice de Arafat, Mahmoud Abbas, tinha como objetivo visitar Paris para "enterrar Arafat vivo".
Pouco tempo depois de redes árabes de TV e rádio transmitirem as afirmações de Suha, as autoridades desistiram da viagem, para mais tarde voltarem atrás e confirmarem a ida à Europa.
No entanto, o descontentamento com a atitude da esposa do líder palestino não se dissipou.
No início da tarde desta segunda-feira, em uma manifestação no centro da cidade de Ramallah, um grupo de mulheres gritava palavras de ordem como "Suha, fique em Paris", para demonstrar seu descontentamento.
As manifestantes também gritavam que a mulher de Arafat não tinha o direito de se intrometer em questões políticas palestinas.
Ausência
Suha é muito criticada nos territórios ocupados por ter se mudado para Paris desde o começo da intifada (a revolta palestina) há quatro anos e deixado Arafat para trás em seu quartel-general de Ramallah.
Agora, após essa ausência, eles acreditam que ela não tem mais o direito de decidir sobre o futuro do marido, que é considerado um símbolo da luta por um Estado independente.
"A família palestina é muito mais importante que o núcleo familiar de Arafat", afirmou o ministro da Juventude e Esporte, Saleh Altamary.
Altamary fez suas declarações do lado de fora do quartel-general de Arafat, onde várias autoridades estavam discutindo o que fazer diante da nova e inesperada crise.
Para o analista político Said Zidani, ninguém estava preparado para a atitude de Suha.
"Isso não era esperado e é muito estranho. Não sabemos exatamente por que ela está fazendo isso, talvez seja ressentimento em relação à atual liderança política", afirmou o analista, embora ele mesmo pondere que ela nunca teve um papel político entre os palestinos.
Said Zidani afirma que ainda é cedo para saber exatamente qual será o impacto de todo o processo. No entanto, ele acredita que a situação poderá até beneficiar a nova liderança.
"Com certeza, esse fiasco não vai atrapalhar o apoio popular (à nova cúpula) e pode até ser que ele una ainda mais os palestinos."