29 de outubro, 2004 - 10h41 GMT (07h41 Brasília)
Em novembro, Band Aid (traduzamos por esparadrapo) completará 20 anos.
Foi em 1984 que os roqueiros Bob Geldof e Midge Ure deram as desafinações iniciais no projeto, que, junto com o concerto Live Aid, deu início às celebrações que, para júbilo e satisfação emocional da garotada, entre uma cerveja, um berro e um saracoteio, deveriam salvar o mundo mediante uns cobres doados ou investidos num disquinho.
Sensacional! Rock não só da prise como também salva vida de crioulinho africano.
O sonho começava! A miséria chegaria ao fim! Tudo graças a Bob Geldof e sua abordagem direta – além de enfezada e desaforada – dos problemas de ajuda humanitária e alimentação não só da Etiópia como do mundo inteiro.
Geldof, hoje, afirma que o esquema pop salvara “30 milhões de pessoas de morrer de fome”.
Parece meio inútil citar fatos diante de desfile pop auto-intitulado de “musical”. O fato de que o coronel etíope Haile Mariam Mengistu criara, como tática militar, uma vasta região de fome e seca, não passava de detalhe insignificante para o auxílio popular.
Na verdade, as guerras que se sucediam na Etiópia eram a principal causa da tragédia. Pouco interessava aos roqueiros que Mengistu conduzia três guerras simultâneas, duas no norte, em Tigre e na Eritréia, outra no sul, em Oromo.
As atrocidades cometidas pelos soldados de Mengistu nas regiões afetadas pela seca e fome devastadoras eram secundárias. Não pegava bem ainda lembrar que o ditador usava da fome como arma de guerra: bombardeava colheitas e mercados.
Mengistu faturava em cima da fome e da seca. Não pegava (e ainda não pega) bem lembrar que 90% do auxílio humanitário à Etiópia partiram de governos ocidentais.
Como também é melhor esquecer que 90% do auxílio levantado pelos roqueiros foram canalizados, isto é, utilizados, pelo próprio coronel Mengistu.
Argumenta-se que a iniciativa só piorou e adiou o problema. Quantos morreram? De verdade? Sem ser letra de rock? Ninguém sabe.
Entre 84 e 85,cerca de 1 bilhão de dólares em auxílio entraram na Etiópia. Com o dinheiro, Mengistu aprimorou sua maquinaria bélica.
O mundo não aprende. O que quer mesmo e dançar e cantar. O esparadrapo ataca de novo: roqueiros do século 21 deverão regravar Do they know it´s Christmas? (“Será que sabem que é Natal?”). Muitos, distantes da África, sabem que é: ricos presentes aguardam-os debaixo da árvore.