22 de outubro, 2004 - 12h16 GMT (09h16 Brasília)
“Quero chorar não tenho lágrimas, que me rolem na face pra desabafar”, dizia o velho samba de Max Bulhões e Milton de Oliveira.
Era um tempo, depreendo, em que homem chorando não tinha nada demais. Principalmente em música de carnaval.
No dia a dia, com a velha influência do tango, nós repetíamos o bordão simplista: homem que é homem – cara macho – não chora.
Não sei se as coisas mudaram. Aqui, pelas ilhas britânicas, homem chorando é a última palavra em matéria de atitude positiva diante da vida.
Uma pesquisa do Centro de Pesquisas Sociais Oxford, que tem tempo e verba para essas coisas, após consultar mais de 2 mil homens com mais de 18 anos, descobriu que 77% deles achavam perfeitamente aceitável chorar.
Mais: chorar em público. Aceitar até o lencinho que a senhora ao lado oferecer, adianto eu.
O co-autor do relatório, Peter Marsh, também diretor do Centro, anunciou em termos secos e incisivos que, hoje em dia, chorar passou a indicar sensibilidade e não fraqueza.
Por isso ninguém se espanta em ver um marmanjão feito o David Beckham esvair-se em lágrimas no estádio, diante de torcedores e das câmeras de televisão.
O relatório, no entanto, mantém umas atitudes de milongas portenhas: mulher tem três vezes mais possibilidade de chorar do que homem.
E Londres é onde há mais possibilidade de se dar com um cara chorando na esquina, no pub ou no metrô.
Choram, inclusive, de felicidade, embora não tentem disfarçar quando é lágrima triste mesmo.
Os motivos que mais levam a rapaziada ao choro são, em primeiro lugar, quando da perda de uma pessoa querida: uns 74%.
Depois, e isso é curioso, quando de um momento triste num filme, programa de TV ou livro: 44%.
39% esbarram e soluçam no velho lugar-comum: fim de caso. 18% ouvindo música, que, infelizmente, a pesquisa não especifica qual.
Logo abaixo, 17% confirmam um vexame tradicional: as lágrimas vertidas com a rapaziada morta de pena de quem? De si mesma, ora!
No fim da lista, com apenas 9%, estão os homens que choram em casamento.
Uma falta de sensibilidade, acrescento eu, que, há pouco mais de um mês, passei por essa experiência e neguei a letra do samba citado no início deste relato: eu não queria chorar e, apesar de tudo, tive lágrimas a me rolar pela face.
Muitas lágrimas.