19 de outubro, 2004 - 16h55 GMT (13h55 Brasília)
Márcia Freitas
A aceitação de padres homossexuais dentro da Igreja Católica brasileira deve levar ainda muito tempo para se concretizar, mas é "inevitável", na opinião do reverendo Mário Ribas, um dos primeiros homossexuais assumidos a serem ordenados pela Igreja Episcopal Anglicana Brasileira.
Em entrevista à BBC Brasil, Ribas, que foi pároco em Santos por cinco anos e desde abril está na África do Sul fazendo um doutorado, disse que o processo será mais demorado dentro da Igreja Católica por ser uma questão mais dependente do Vaticano do que das autoridades locais.
"À medida em que a questão é resolvida na sociedade de uma maneira geral, a Igreja acaba aceitando, acaba mudando o seu posicionamento. Eu acho que isso é inevitável", afirma Ribas.
Na opinião dele, a sociedade brasileira está ficando mais aberta e caminhando para uma maior aceitação do homossexualismo. Ele diz, por exemplo, que há cada vez mais casos de juízes concedendo direitos como pensão e guarda de filhos a parceiros homossexuais.
Desculpas
"No Brasil, eu vejo que a Igreja Anglicana e também outras Igrejas estão discutindo o assunto, porque é pertinente. Mas na Igreja Católica o processo deve ser bem mais demorado", diz o reverendo.
Na segunda-feira, a Igreja Anglicana convocou os líderes da igreja americana a se desculpar por terem ordenado um padre homossexual como bispo.
A convocação foi feita pela comissão Lambeth, criada depois que a ordenação de Gene Robinson, no Estado americano de New Hampshire, ameaçou dividir a Comunidade Anglicana mundial.
Racha
O reverendo Mário Ribas diz não acreditar que a Igreja americana vá se desculpar pela decisão de ordenar o padre Gene Robinson como bispo.
"Foi algo que eles discutiram, refletiram, oraram. Eles olharam para a competência pastoral de Gene Robinson e acharam que era para o bem da Igreja", afirma.
Ribas afirma que pode ser inevitável que alguns integrantes ou algumas comunidades locais deixem a Comunidade Anglicana por causa da polêmica, mas disse não acreditar em um racha dentro da Igreja.
"Mesmo na ordenação de mulheres ao sacerdócio, ao episcopado, houve a mesma revolta, foram feitas várias ameaças de cisma e isso nunca aconteceu", afirma ele, que ressalta, no entanto, que ainda é cedo para se fazer uma avaliação.
No Brasil, segundo ele, o assunto tem causado menos polêmica.
"Uma coisa que ficou bem clara na minha ordenação era a questão da competência pastoral, se eu tinha vocação para exercer o ministério."
"Em termos da orientação sexual, isso nunca foi um problema. Talvez tenha sido um problema para algumas pessoas dentro da comunidade, mas nunca atrapalhou o meu ministério", afirma.
Bíblia e homossexualismo
O reverendo criticou o relatório da comissão Lambeth, dizendo que o documento trata a questão como se fosse um assunto doutrinário e ideológico, quando, na opinião dele, é um assunto pastoral.
"Isso (a ordenação de homossexuais) é uma atitude pastoral, de acordo com a necessidade cultural de cada ambiente em que a Igreja está estabelecida. Nos Estados Unidos, o que aconteceu foi isso. O documento esqueceu de abordar essa lado também", diz.
Na opinião de Ribas, a Bíblia não condena o homossexualismo.
"Eu não vejo nenhuma condenação em relação a isso. Nos evangelhos principalmente, onde estão a base da nossa fé, não existe qualquer menção sobre o assunto", afirma.
Ele diz que a Bíblia não pode ser usada como um "manual de regras", porque, apesar de apontar caminhos, "ela não tem como abordar todas as questões envolvendo a complexidade da vida humana".
Segundo o reverendo, se a Bíblia for usada como um manual de regras, erros cometidos no passado poderão ser repetidos.
"Muitas pessoas no passado tentaram usar a Bíblia para legitimar a escravidão. Aqui na África do Sul, por exemplo, a Igreja reformada usou a Bíblia durante muito tempo para legitimar o apartheid. A Bíblia foi usada para legitimar a opressão das mulheres. Então não podemos cair no mesmo erro", afirma Ribas.
Ele lembra que a Bíblia enfatiza a necessidade do amor ao próximo.
"O princípio básico para todas as relações é o amor, ou seja, fazer o bem ao próximo. Fora isso, não exite nenhum outro princípio para determinar como as relações devem ser, se devem ser com homem ou com mulher", diz o reverendo.
A Igreja Anglicana foi estabelecida no Brasil em 1810 e tem cerca de 120 mil integrantes.