01 de outubro, 2004 - 07h52 GMT (04h52 Brasília)
Caio Blinder
de Nova York
Ao longo das últimas semanas, a campanha republicana foi fulminante na tarefa de transformar a eleição presidencial em um referendo sobre John Kerry e não sobre George W. Bush, com um ataque atrás de outro sobre o caráter do senador democrata, suas vacilações e troca de posições no Iraque.
No primeiro debate presidencial, realizado quinta-feira em Miami, Kerry teve um desempenho consistente (palavra maldita nesta temporada eleitoral) e conteve esse processo de erosão de sua credibilidade.
Um tropeção teria sido fatal. Mais do que isso, ele teve o comando do debate.
O alívio dos estrategistas democratas após o debate deu uma medida do que estava em jogo.
Consistente
A questão é saber o alcance da recuperação do senador democrata, um político associado a arrancadas na reta final de uma campanha eleitoral.
Kerry precisa urgentemente - a um mês da eleição - alterar decisivamente a dinâmica.
Precisa provar que é mais consistente e resoluto do que Bush. São atributos muito mais associados ao presidente, que, de fato, certo ou errado, decide as coisas.
O debate foi ilustrativo porque, embora os candidatos tenham repisado posições, slogans e linhas de ataque sobre o oponente, eles estavam no mesmo "palanque", o que é fundamental para milhões de eleitores que não acompanham fanaticamente a disputa eleitoral, em particular os indecisos.
Havia, finalmente, um padrão de comparação entre os dois candidatos, distanciados por menos de três metros.
Na televisão era possível distinguir claramente posições e expressões faciais.
Kerry bateu na tecla de que a guerra no Iraque desviou a atenção, energia e recursos da missão mais importante que é a guerra contra o terror.
Bush insistiu que não dá para desvincular as duas frentes de batalha e num bom argumento advertiu que Kerry, ao tratar o Iraque como um fracasso, baixa o moral da tropa.
Erro
Mas há uma outra distinção importante. Kerry reconheceu o erro das suas posições contraditórias sobre o Iraque, mas desferiu o golpe de que as certezas absolutas do presidente são um problema mais grave e estão longe de ser uma virtude.
Na frase de efeito, o democrata perguntou se a guerra em si não era o erro supremo.
Atacado com insistência, o presidente passou boa parte do tempo na defensiva e carrancudo.
E em vários momentos não escondia a irritação com os argumentos de Kerry, o que pode irritar muitos eleitores.
O presidente agia mais como um comandante-em-chefe que não gosta de ser questionado do que um candidato que precisa estar mais relaxado nesse tipo de ocasião.
Kerry exibia um sorriso irônico, mas não derrapou para a condescendência que foi fatal para o democrata Al Gore no seu duelo contra Bush há quarto anos.
Com a consistência de Kerry e a postura de Bush, o debate de quinta-feira transferiu o ônus um pouco para o presidente, mas não torna muito leve a carga do oponente democrata.
O maior desafio para Kerry não é convencer os americanos que as coisas não andam às mil maravilhas no Iraque (ou mesmo dentro de casa), mas ainda é persuadi-los que ele deve ser eleito para arrumá-las.
Antes do debate, dizia-se que ele seria decisivo. Foi na medida em que manteve Kerry no páreo. Os outros dois debates serão definitivamente decisivos.