30 de setembro, 2004 - 14h35 GMT (11h35 Brasília)
Carolina Cimenti
de Bruxelas
Pela primeira vez, desde o início das negociações, o Mercosul e a União Européia (UE) assumem publicamente que será “muito difícil” fechar o acordo de livre comércio entre os dois blocos até o dia 31 de outubro.
Para o embaixador brasileiro junto às Comunidades Européias, José Alfredo Graça Lima, a oferta final da UE ficou muito aquém do esperado.
“Eu não entendo que esse seja um cenário que conduza a progressos muito urgentes e de muito curto prazo nessas negociações”, disse.
Arancha Gonzalez, porta-voz do comissário europeu para o Comércio, Pascal Lamy, concorda. “Dividimos essa opinião com o Mercosul. Será muito difícil que o acordo seja fechado em outubro”.
Reclamações
Com ofertas finais que não agradam a nenhum dos lados, a criação daquela que seria a maior área de livre comércio do mundo parece missão impossível dentro do prazo de um mês, quando termina o mandato dessa Comissão Européia, o braço executivo da UE.
“Eu inclusive ouvi de um alto funcionário da comissão (européia), envolvido com as negociações, que não via muita hipótese para a realização da reunião ministerial no dia 20 de outubro no Rio de Janeiro”, disse Graça Lima.
A expectativa era de que nesse encontro, entre o ministro Celso Amorim e Pascal Lamy, o acordo seria finalizado.
A UE não considera a oferta final do Mercosul ambiciosa o suficiente para fechar o acordo.
Os europeus reclamam que falta liberalização nas áreas de investimentos, telecomunicações, bancos e compras governamentais, as chamadas licitações públicas, do lado do Mercosul.
O bloco sul-americano também não ficou satisfeito com a oferta européia, principalmente na área mais importante, a agrícola.
Futuro
A UE aceita liberalizar apenas os produtos agrícolas que não produz ou que não protege com subsídios, então deixa de fora a liberalização do comércio de carne, álcool, açúcar e muitos outros produtos fundamentais para a economia do Mercosul.
Os dois lados ainda terão alguns dias para analisar detalhadamente as
ofertas feitas essa semana.
Se decidirem continuar negociando – o que hoje parece improvável, segundo fontes envolvidas nas negociações – uma reunião técnica será realizada já na semana que vem em Bruxelas.
Caso contrário, o Mercosul voltará à mesa de negociação com a
nova Comissão Européia, que toma posse no dia primeiro de novembro.
“O próprio futuro comissário para o Comércio (o britânico Peter Mandelson) já declarou que o Mercosul será uma prioridade para a UE, pelo menos para ele como comissário de Comércio, que é uma peça chave nas negociações”, disse o embaixador Graça Lima.