23 de setembro, 2004 - 16h40 GMT (13h40 Brasília)
Na campanha americana, o stump speech é o equivalente ao nosso comício de palanque: o objetivo é arrepiar a nuca do eleitor, mas não pode ser histérico.
O candidato Howard Dean perdeu o controle uma vez e nunca conseguiu se recuperar nas primárias.
O comício é repetido quatro, cinco, seis vezes por dia, ou enquanto o candidato tiver voz. Quase nunca dura mais do que trinta minutos.
O discurso de George Bush foi ensaiado e coreografado em todos os detalhes e o presidente jamais muda o texto ou a gesticulação.
Sem gravata
Ele entra sem gravata, com a manga da camisa arregaçada, pisando firme e com um leve gingado. Cumprimenta algumas pessoas na primeira fila e, depois, apoiado no pódio, inclina o corpo ligeiramente para a frente, começa a falar com frases curtas e sincopadas.
Às vezes, parece um rap. Alguns trechos lembram um sermão evangélico.
A primeira metade do comício é sobre questões domésticas. A outra, que levanta o auditorio, é sobre o adversário, Iraque e o terror.
Quem ouve acha que a economia disparou, que a educacao é a melhor e mais barata do mundo, que ninguém mais vai morrer de doença, que o Iraque é um sucesso, que o adversário é um idiota e que os terroristas estão às carreiras sujando as calças.
O público responde aos gritos: mais quatro anos, mais quatro anos. Este presidente, famoso pela dificuldade de articular bem uma frase, é um campeão de palanque.
O senador Kerry, em cada comicio, mexe no discurso. As frases são mais longas, o tom é menos intenso, o ritmo mais lento.
Segunda-feira passada, falando na New York University, ele mudou o tom e o estilo do discurso. Mirou no Iraque do presidente e disparou.
Não sei se arrepiou o cabelo da nuca, mas acertou em muitos corações e teve uma reação eufórica, mas, em eloqüência, continua apanhando do presidente.