16 de setembro, 2004 - 15h30 GMT (12h30 Brasília)
Louisa Lim
Disseminar a fé é uma obrigação do islamismo, mas para os 20 milhões de muçulmanos chineses, isso é possível apenas dentro dos limites de uma mesquita.
O governo ateu chinês desconfia de qualquer um que possa ter a lealdade dividida, especialmente dos que possam ser mais fiéis a uma religião. A estratégia é incorporar os líderes religiosos dentro da hierarquia comunista.
Hong Yang é um consultor do governo, além de líder espiritual de um milhão de muçulmanos na província de Ningxia, o coração islâmico da China.
"Obviamente, o ideal seria que eu fosse uma figura meramente religiosa. Mas aqui é a China", diz Hong. "Se sirvo de ponte entre o governo e o povo, todos ganham."
Conflito
A liberdade religiosa é garantida pela Constituição chinesa, mas desde que sejam obedecidos os "limites impostos pela lei e pela política chinesa", diz Hong.
"Não queremos ultrapassar esses limites, porque isso pode gerar conflito e instabilidade para toda a sociedade."
Rituais religiosos apareceram novamente no país apenas durante os anos 80, após décadas de repressão comunista que baniu qualquer manifestação mística.
O islamismo atualmente cresce no país, e o governo teme o fervor de seus fiéis. No passado, a região de Ningxia foi palco de rebeliões contra o governo central.
As autoridades em Pequim monitoram de perto os muçulmanos que permaneceram isolados de outras comunidades islâmicas no mundo.
De acordo com Khaled Abou El-Fadl, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, isso fez com que antigas tradições, como a das juristas mulheres, continuassem no país, apesar de extintas em outras partes.
"Movimentos mais modernos, que buscam versões mais radicais e puritanas do islamismo, não conseguiram penetrar na China", diz El-Fadl.
"É possível que, da periferia do islamismo, a nobre tradição das mulheres juristas possa ser revivida."