03 de setembro, 2004 - 11h10 GMT (08h10 Brasília)
Nos meus tempos de Rio, havia ônibus e havia bonde. Ônibus, eu sei que ainda tem. Bonde, eu juro que acabou, a não ser, dizem, em Santa Teresa.
Sim, esta é mais uma crônica da série "No Meu Tempo Era Muito Melhor", estampa 5, como aquelas que vinham com o sabonete Eucalol. Os bondes eram lentos, baratos e muito mais simpáticos que os ônibus. Tinha até bonde de segunda classe, para quem estivesse transportando mudanças ou carregando sua pobreza: eram os taiobas, ou bagageiros.
Tanto num quanto noutro, bonde e ônibus, havia um aviso bem em cima, ou ao lado, do motorneiro, no bonde, ou motorista, no ônibus. Dizia assim: "É proibido conversar com o motorneiro". Ou motorista.
Uma recomendação inútil, sabíamos todos, uma vez que bons de papo mesmo, nos bondes, eram os condutores, em geral apelidados de "Baiano", e sempre dispostos a discutir futebol (torciam invariavelmente pelo Vasco) ou a Guerra da Coréia (eram contra os americanos; ou pelo menos o meu querido "Baiano" era).
Conversar com o motorista ou motorneiro? Nunca nos ocorreu. E essa primeira pessoa do plural aí refere-se a nós, garotões indo e vindo do colégio. Como o "com o" vinha quase sempre junto demais, nossa graça era virar um para o outro e falar assim:
– Então, tem atropelado muito burro sem rabo?
– Ontem mesmo peguei três.
Não falávamos "com o" motorista ou motorneiro. Falávamos "como" motorista ou motorneiro. Essa a nossa segunda graça de bonde. A primeira era dar o beiço, conforme se dizia, ou seja, não pagar, ficar fugindo do "Baiano", pulando, em cada parada, de um banco no bonde para outro. Esse o nosso comportamento anti-social de então.
Não sei como estão as coisas aí. Aqui, vão mal. É um comportamento anti-social após o outro. Em metrô (não, aqui não tem bonde) e ônibus. Onde não só é para não conversar com o motorista como também não cuspir nele.
Tanto andaram cuspindo em motorista de ônibus que, a partir deste ano, eles passaram a ser equipados com um kit contendo todo material necessário para coletar o cuspe do agressor e, assim, conseguir seu DNA, que passa imediatamente a constar de um banco de dados nacional.
Sou mais aquelas linhas do grande Rubem Braga em que o sabiá da crônica dizia que "viver era sentar na primeira fila do bonde e conversar com o motorneiro".