01 de setembro, 2004 - 19h41 GMT (16h41 Brasília)
Thomas de Waal*
Por mais de quatro anos a palavra que o presidente russo Vladimir Putin tem usado para a situação na Chechênia é "normalização".
Ele assegurou o povo russo de que o conflito estava praticamente terminado, que sua tática de não negociar com os líderes do movimento pró-independência da Chechênia está funcionando e que ele não precisa de tropas internacionais na problemática república.
Apesar de o presidente russo argumentar que este é um problema internacional - que a Chechênia se tornou uma frente na "guerra mundial contra o terrorismo" - ele vinha rejeitando constantemente um papel maior para a Organização das Nações Unidas (ONU) ou para a Organização para a Cooperação e Segurança Européia no conflito.
Mas a idéia de que tudo corria nos eixos foi abalada pela tomada de um teatro em Moscou por rebeldes chechenos que, em outubro de 2002, causou a morte de mais de 129 pessoas que foram assistir ao musical Nord-Ost.
A idéia também foi abalada pelo assassinato no início deste ano do líder checheno pró-Rússia Akhmad Kadyrov.
Em frangalhos
Agora, a "normalização" está em frangalhos enquanto Putin enfrenta a pior semana de ataques de toda a sua gestão.
Fica cada vez mais aparente que a queda de dois aviões de passageiros russos na semana passada foi obra de militantes suicidas chechenos.
Outra bomba, do lado de fora de uma estação de metrô em Moscou, causou a morte de dez pessoas na terça-feira à noite.
E na quarta-feira, a Rússia enfrenta mais uma crise - a tomada de mais de 200 reféns em uma escola primária no sul do país, com a complicação de serem, na maioria, crianças.
Nova geração
A escala do problema enfrentado pela Rússia é grande. O país inteiro é alvo potencial e os seqüestradores parecem ser de uma nova geração de rebeldes islâmicos chechenos que, literalmente, não têm nada a perder.
Esses jovens homens e mulheres que lutam a chamada "guerra santa" já aparecem mais do que os integrantes mais moderados da campanha pró-independência que formavam a essência do movimento rebelde nos anos 90.
Uma coisa, no entanto, não mudou desde aquela época: a corrupção na Rússia é tanta que um rebelde checheno pode passar por várias barreiras militares simplesmente pagando suborno.
Um motorista checheno recentemente estimou que o preço para passar uma bomba por uma dessas barreiras é de 500 rublos (cerca de R$ 50).
Isso quer dizer que para acabar com o problema, o presidente russo precisa rever totalmente os serviços de segurança.
Opinião popular
O problema é que Moscou tem feito tudo para excluir e alienar esses chechenos.
Nas eleições de domingo passado na Chechênia, o Kremlin praticamente apontou seu candidato Alu Alkhanov para liderar a república e impediu a participação de candidatos mais populares.
O paradoxo da situação é que, apesar de Putin ter fracassado em sua promessa de resolver o problema da Chechênia, ele ainda conta com o apoio público.
A mídia russa raramente exibe um ponto de vista alternativo e os sentimentos anti-chechenos estão mais fortes do que nunca.
Este agora se tornou o problema permanente de Putin, e ele vai ter que lidar com isso.
*Thomas de Waal é editor do Instituto de Reportagem de Guerra e Paz para assuntos do Cáucaso.