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Ivan Lessa: Enfim, o sentido de tudo

Botar um ratinho num labirinto é de uma pobreza científica extraordinária. Ou deciframos o mistério da existência do Universo ou o resfriado que fique sem cura. Ao que parece, agora, enfim, os físicos tomaram tino e vão tentar provar, por A mais B mais X, Y e Z, que Deus existe e tudo pode ser explicado.

Na realidade, os físicos vão tentar provar a existência de uma partícula que, como Conceição, ninguém sabe, ninguém viu: a chamada Partícula de Deus, um misterioso fragmento subatômico que permeia todo o Universo e, de lambugem, ainda vai e explica por que é que tudo é como é – das contas apresentadas pelos sistemas legislativos ao sucesso de certas bandas de rock.

A Partícula de Deus nunca foi vista por ninguém. Nem fotografada, ao contrário de alienígena e disco voador.

Homens de altíssimo quociente intelectual, colecionadores de prêmios Nobel, garantem, no entanto, que a Partícula de Deus existe, tanto é que um considerável número de físicos já está concentrado e se preparando, física e espiritualmente, para conduzir uma das mais ambiciosas e caras – olímpicas mesmo, eu diria – experiências científicas do mundo.

Doze peritos de diversas partes do mundo, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Japão e Alemanha, já estão com os planos traçados para a construção de uma gigantesca máquina destinada a desintegrar o átomo até este não aguentar mais, pedir soda e revelar sua Partícula de Deus.

Trata-se de um vasto túnel de mais de 30 km de distância destinado a acelerar partículas de cada um de seus lados a velocidades beirando a da luz e fazendo que elas, as partículas, no meio, se arrebentem uma de encontro a outra.

Do choque, teremos, como num passe, não de mágica mas de física, a Partícula de Deus. Do cataclismo resultante, os cientistas poderão recriar, acreditam eles, as condições que se seguiram às primeiras bilionésimas frações de segundo que se seguiram à criação do Universo.

Há um único probleminha antes disso tudo virar esplêndida realidade: o preço. O pacote todo deverá sair, calculam por baixo, lá por volta dos US$ 3 bilhões.

Nenhum físico conseguiu, até agora, indicar uma única utilidade para a Partícula de Deus, uma vez provada sua existência. Parece que até mesmo os parques temáticos e circos de Estados Unidos e Europa não estão interessados. Ou a igreja. Qualquer igreja. Todas as igrejas.