17 de agosto, 2004 - 18h31 GMT (15h31 Brasília)
Andrew Fraser
De Atenas
O corredor Roberto Caracciolo não sabia se ria ou se chorava quando soube que foi escolhido para representar a Guiné Equatorial nas Olimpíadas de Atenas.
Isso porque, antes dele, o seu compatriota Eric 'O Enguia' Moussambani ficou famoso em todo o mundo ao encontrar dificuldades significativas para completar uma prova de natação de 100 m livre, nas Olimpíadas de Sydney, na Austrália.
No entanto, Caracciollo está disposto a provar que a distância entre ele e "O Enguia" é bem grande, quando for correr a prova dos 1,5 mil metros.
"Não sei se o fato de o Eric não estar aqui em Atenas é uma benção ou não", afirmou o representante do país de apenas 494 mil habitantes à BBC.
"Acho que, se ele estivesse, teria tirado um pouco da pressão sobre mim."
'Soco'
Ao mesmo tempo, o corredor diz que talvez fosse lhe dar um soco e dizer: "O que você está fazendo, cara?"
"Mas não posso criticá-lo demais. Ele só fez o que sabe fazer e, como eu, agarrou a oportunidade que lhe deram", completou o atleta.
"Ele só não sabia das repercussões. Infelizmente, é algo com o que o resto de nós vai ter que conviver por muitos e muitos anos."
Caracciollo, que está escrevendo um blog sobre a sua participação nos Jogos Olímpicos, não conhece "O Enguia" pessoalmente.
O pai do corredor é um diplomata americano e a mãe é da Guiné Equatorial.
O atleta viveu por pouco tempo no país africano, quando era criança.
Enquanto Moussambani não pode ir para Atenas porque as autoridades perderam a fotografia do passaporte dele, Caracciollo descobriu ao chegar na Grécia que não poderia competir na sua especialidade: a corrida de 3 mil metros com obstáculos.
Isso porque as regras para a prova estabelecem que os representantes de países pequenos não-classificados têm que ser sorteados em uma loteria.
'Medalhista'
Para piorar ainda mais a situação do atleta, o povo da Guiné Equatorial acredita que ele realmente tem chances de medalha.
"Estão dizendo o tempo todo na televisão e no rádio que o país tem um grande atleta que viveu a vida inteira nos Estados Unidos e que está levando o seu próprio técnico para as Olimpíadas", explicou Caracciollo.
Em outras palavras, o corredor sente a pressão vindo de todos os lados.
"Quando penso nisso, quase passo mal."
Para acabar de vez com as comparações com o compatriota, Caracciollo pretende se manter no pelotão da frente até os 800 metros e "ver o que acontece" daí para frente.
Ele disputou apenas poucas corridas de 1,5 mil metros na sua vida de estudante, mas acredita estar pronto.
"Estou bastante seguro e quero ver como vou terminar a prova", disse o atleta, que acrescenta, bem humorado: "Não está nos meus planos me transformar em um novo Eric e me afogar na pista ou qualquer coisa assim."