16 de agosto, 2004 - 12h05 GMT (09h05 Brasília)
"O importante é competir", equivocou-se em 1896 o Barão de Coubertin, tido como o pai da moderna Olimpíada.
"Competir e soltar plumas furiosamente", acrescentaria eu em 2004.
"Altius, citius, fortius" é o lema olímpico então adotado. Aliás, por que em latim e não grego?
"Altius, citius, fortius e kitschius", sugiro eu de olho numa medalha de bronze. Mais alto, mais rápido, mais forte e mais kitsch.
Kitsch é aquele desmando melodramático feito para o gosto mediano com a pretensão de encarnar valores culturais mediante estereótipos e chavões inautênticos.
Na sexta-feira, 13 de agosto (toque, toque), fui uma das cerca de, dizem, quatro bilhões de pessoas que assistiram à cerimônia de abertura dos jogos de Atenas.
Umas 10 mil rolaram no chão de tanto rir. Eu entre elas. Mais engraçado que aquilo só filme do Gordo e do Magro.
A graça toda residindo principalmente no monumental esforço coordenativo, organizacional e financeiro que se gastou para, como Pigmalião a Galatéa, dar um sopro de vida ao show dos shows.
Não vi jornal britânico, americano ou brasileiro que não desse medalha de ouro para a deliciosa travessura helênica que, em impagáveis três horas e meia, tentou narrar, digamos assim, a história da Grécia, desde a era Cicládica de 2700 aC, passando por Pitágoras e Alexandre o Grande, sem deixar de pé mito sobre mito: do minotauro a um saboroso cavalheiro, supostamente Eros, pintado de azul, pendurado sobre o drama todo e voando pra lá e pra cá, distribuindo, suponho, sonho, amor e paixão.
E tome friso! Sem esquecer do garoto no barquinho de papel.
Tudo terminando com o rosto ardente e a voz vibrante de Maria Callas, seguida, inexplicavelmente, de Bjork, moça islandesa que se diz “cantora”, vestida e pintada como uma louca, altissonando a pior letra e música já composta por homem, besta ou fera.
Pena também que dois atletas gregos não puderam comparecer aos exames de doping devido a inadiável compromisso anterior com um acidente de moto.
Ressaltemos ainda os paletós da delegação brasileira. Cor creme de abacate. Então tá. Receita: depois de tirar o caroço, jogue a fruta no liquidificador, acrescente sorvete de creme à vontade, algumas gotas de de limão e, para finalizar, um tico de vinho do Porto ou Marsala.