13 de agosto, 2004 - 10h00 GMT (07h00 Brasília)
Edson Porto
Enviado especial a Caracas
A maior dúvida hoje na Venezuela é quem vai ganhar o plebiscito de domingo, que decide se o presidente Hugo Chávez permanece ou não no cargo.
Mas a pergunta que deixa os venezuelanos mais angustiados é outra: o que o lado derrotado vai fazer?
Na quinta-feira, o presidente Chávez deu uma resposta clara para a hipótese de ele levar a pior.
“Se perdesse, entregaria a Presidência no dia 15 de agosto a José Vicente Rangel (o vice-presidente)”, afirmou ele, para logo em seguida jurar que deixa o cargo caso perca.
Ele também já deixou claro que, nesse caso, seria candidato à Presidência na nova eleição – prevista para um mês depois do plebiscito –, embora a Justiça ainda tenha que determinar se Chávez de fato poderia se candidatar.
No entanto, o presidente venezuelano disse também que é praticamente “impossível” que ele perca o referendo.
Respeito
Do lado da oposição, o discurso oficial é igualmente de respeito ao resultado.
Como já disseram outros membros da Coordenação Democrática, a frente anti-Chávez, o deputado Carlos Ocaris afirma que “caso o referendo seja transparente, a oposição aceitará a derrota”, embora ele também diga que não acredita que perderá.
Para analistas políticos, tão importante quanto o vencedor será a forma da vitória.
“A situação mais perigosa será um resultado muito apertado para um lado ou para o outro”, afirma Elza Cardoso, da Universidade Central.
Segundo ela, será mais difícil para qualquer um dos lados aceitar uma derrota apertada, especialmente porque há desconfiança de fraudes e manipulações do processo entre as duas partes.
Mas e a violência?
“Se houver fraude ou algum problema sério na apuração, poderemos ver violência, mas nada como em 2002 (quando Chávez chegou a ser derrubado do poder por dois dias)”, acredita o chefe do departamento para América Latina da empresa Idea Global.
Polarização
No entanto, a tensão e polarização no país é tão grande que se torna difícil chegar a uma conclusão definitiva.
Para o administrador Jesus Rodrigues, que participou da última manisfestação contra Chávez em Caracas na quinta-feira, a oposição só vai perder se houver fraude. E, nesse caso, diz ele, “as pessoas vão para às ruas”.
Ao mesmo tempo, circulam boatos de que grupos ligados a Chávez, militares ou não, estariam se preparando para a eventualidade de uma derrota.
O canal de TV CNN em espanhol apresentou na quinta-feira “um grupo armado” que prometeu, em uma fita gravada para a emissora, defender o presidente caso ele perca.
Mas, nem especialistas nem as pessoas na rua sabem dizer com precisão se a polarização da sociedade venezuelana pode novamente degenerar em violência após o referendo. A maioria, entretanto, não descarta a possibilidade.