12 de agosto, 2004 - 20h45 GMT (17h45 Brasília)
Alexandre Mata Tortoriello
enviado especial a Brasília
O chefe dos negociadores europeus, Karl Falkenberg, confirmou nesta quinta-feira, em Brasília, que as conversas com o Mercosul para uma área de livre-comércio não avançaram depois de três dias de discussões.
"A rodada de Brasília chegou ao fim sem resultados concretos", disse.
Falkenberg afirmou ainda que não consegue esconder a "frustração".
Segundo ele, as razões para a falta de entendimento foram mais "de processo que de substância", referindo-se ao fato de que os dois lados tinham ofertas a fazer, mas não chegaram a um acordo sobre como apresentá-las.
O Mercosul queria que todas as propostas fossem colocadas à mesa de uma vez, enquanto a União Européia (UE) defendia que cada uma fosse negociada caso a caso.
Final antecipado
O encontro estava marcado para terminar na noite desta quinta-feira, mas o desacordo entre as partes acabou precipitando o término.
"Viemos aqui para trabalhar de terça a quinta-feira. E fizemos isso. Não terminamos à meia-noite de quinta, mas terminamos ao meio-dia", disse Falkenberg.
Indagado sobre a possibilidade de avanços nas negociações, Falkenberg declarou: "Não estamos começando do zero. Há ofertas e o Mercosul sabe o que está na mesa. Nossa oferta atual é de 3 bilhões de euros. Não há açúcar, mas há muito etanol nela".
"Também sei o que o Mercosul ofereceu até agora. Temos é que tornar essas ofertas mais atrativas. Aceito que a Europa se abra mais e mais rapidamente que o Mercosul. O problema é saber qual vai ser o tamanho dessa assimetria", acrescentou.
Caso a caso
O chefe da delegação européia disse que, inicialmente, a UE ofereceu proposta de se abrir 90% para o Mercosul, enquanto o bloco sul-americano abriria apenas 34% do seu mercado aos europeus.
Ainda segundo o chefe dos negociadores europeus, na segunda oferta, o Mercosul propôs um acordo de 3 bilhões de euros e a sua contrapartida foi de 1,7 bilhões de euros.
Em razão disso, segundos os europeus, os dois blocos concordaram que as negociações seriam realizadas caso a caso, discutindo cada um dos setores envolvidos na negociação.
O diretor de assuntos internacionais agrícolas da Comissão Européia, João Pacheco, disse que o Mercosul foi inflexível.
"Não houve qualquer oferta. Houve flexibilidade de nossa parte. E dissemos isso aos colegas do Mercosul, que podíamos aumentar a oferta agrícola, não só na carne bovina como também na carne de frango e em outros setores."
"Depois de termos explicado em linhas gerais a proposta que tínhamos para melhorar nossa oferta em termos de carne, estávamos à espera que houvesse uma contrapartida do Mercosul e ela não veio", afirmou Pacheco.
"O Mercosul insistiu em conhecer toda a oferta agrícola da UE antes de apresentar a sua oferta melhorada."
Falando antes do anúncio do fracasso das negociações, o chanceler brasileiro Celso Amorim disse que é preciso conhecer toda a oferta européia para avaliar se vai haver equilíbrio.
Ele disse que o Mercosul ainda trabalha para fechar um acordo até outubro, mas deixou claro que o prazo não pode comprometer o conteúdo final do acordo.