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11 de agosto, 2004 - 15h32 GMT (12h32 Brasília)

Alexandre Mata Tortoriello
de São Paulo

Política de segurança deve ser apartidária, diz antropóloga

As disputas entre partidos políticos no Brasil são um dos principais motivos para a falta de programas contínuos que garantam a segurança pública no país, de acordo com Alba Zaluar, coordenadora do Núcleo de Pesquisas das Violências da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

Para tentar resolver o problema da violência, a pesquisadora, que estuda a violência no país há mais de 20 anos, defende a criação de políticas suprapartidárias com o apoio da sociedade.

"As organizações da sociedade civil devem ser apartidárias - o que tornou-se muito difícil, porque os partidos políticos começaram a invadir aquilo que eles deveriam preservar", diz Alba.

"É importante que elas reúnam pessoas de diversos partidos diferentes, lutando pelos objetivos que são comuns à sociedade. Isso revela que é possível fazer projetos e planos estratégicos suprapartidários e que tenham continuidade."

Bandeira

A especialista reclama que hoje essa continuidade não existe e a política de segurança pública acaba sendo tratada como a bandeira de determinado governo, ficando conseqüentemente sujeita a mudanças a cada eleição.

"O problema maior está na esfera institucional, na montagem das políticas e estratégias públicas de prevenção e tratamento. Os pequenos projetos que surgem são sempre muito localizados, têm curta duração e não se configuram como estratégias governamentais", avalia.

"Se não houver continuidade, não vamos ter sucesso. Não podemos ficar mudando as políticas de segurança a cada quatro anos."

A antropóloga, que foi uma das primeiras a estudar o domínio do tráfico de drogas nas comunidades carentes do Rio de Janeiro, alerta que o problema é grave e deve ser tratado como prioridade pelo governo federal.

"Essas políticas (de segurança pública) teriam que ser de Estado, e não partidárias. Para isso, temos que ter uma certa continuidade, com a formação de profissionais que vão se tornando competentes na matéria e que podem levar adiante essas políticas, mesmo que o governo mude."

Nomeações políticas

Segundo a especialista, um dos motivos que dificulta as mudanças é o excesso de nomeações políticas.

"Não podemos continuar com este escândalo. Termos 30 mil cargos de confiança só no governo federal. Isso é um absurdo! Nos Estados Unidos, que é um país muito maior, são 5 mil cargos", afirma Alba.

"Isso implica no aparelhamento do Estado pelos partidos que estão no poder. Isso é mortal para as políticas públicas de Estado, como deveria ser a política de segurança."

"Chega-se ao cúmulo de comandantes dos batalhões da PM (Polícia Militar) e delegados serem cargos de confiança, quando não deveriam ser. Deveriam ser técnicos, inclusive para valorizar a carreira do policial", acrescenta a antropóloga.

"Essas decisões, atualmente, são político-partidárias e têm muito pouco a ver com competência e mérito das pessoas envolvidas em trabalhos que estão dando certo e muitas vezes são interrompidos simplesmente porque são de outros partidos, ou vinculados a outras pessoas."

Para contornar a situação, Alba sugere que o governo federal coordene o trabalho em todo o país e promova a integração e a padronização entre os órgãos de segurança pública.

"O crime organizado atravessa as fronteiras de Estados e municípios. Então, não há porque cada cidade, cada Estado, tenha uma política própria nesse combate. Para isso, é necessário um plano nacional, que possibilite uma maior cooperação entre as polícias estaduais e a Polícia Federal."