08 de agosto, 2008 - 13h24 GMT (10h24 Brasília)
A Geórgia acusa a Rússia de praticar uma ofensiva militar terrestre e aérea contra seu território como retaliação aos conflitos entre tropas georgianas e separatistas na região de Ossétia do Sul, afirmam agências internacionais.
A agência de notícias Reuters cita um oficial de segurança nacional do governo da Geórgia que teria dito que os dois países “estão muito perto” de uma guerra e que o país estaria sob ataque.
Há relatos de que aviões russos teriam bombardeado uma base militar próxima da capital da Geórgia, Tbilisi, e que tanques teriam cruzado a fronteira do país.
As tropas georgianas cercaram a capital da Ossétia do Sul, Tskhinvali, nesta sexta-feira, depois de uma noite de intensos conflitos com os separatistas.
Segundo o correspondente da BBC em Moscou, James Rodgers, há claramente uma movimentação militar na Ossétia do Sul, mas não é possível falar em número de tropas.
Pelo menos 15 civis teriam sido mortos durante os conflitos, mas não há confirmação sobre o número exato de vítimas. Uma porta-voz da Cruz Vermelha, Anna Nelson, afirmou que a organização recebeu relatos de que os hospitais da capital osseta estão tendo dificuldades em lidar com o número de feridos.
Apesar de ter proclamado sua independência em 1992, a autonomia da Ossétia do Sul não foi reconhecida pela comunidade internacional e a Geórgia considera a região como parte de seu território.
Os separatistas querem agregar a região à Federação Russa e têm o apoio de Moscou.
Ofensiva
O presidente da Geórgia, Mikhail Saakasvili, fez um pedido para que todos os reservistas se apresentem para o serviço militar e afirmou que irá mobilizar todas as forças possíveis.
Em contrapartida, o presidente da Rússia, Dmitry Medvedev afirmou que o país irá defender os cidadãos russos que vivem na Ossétia do Sul.
“Preciso proteger a vida e a dignidade dos cidadãos russos, onde quer que eles estejam”, disse o presidente. “Não vamos permitir que suas mortes sigam sem punições – os responsáveis terão a punição merecida.”
A ministra das Relações Exteriores da Geórgia, Ekaterine Tkeshelashvili, disse à BBC que a situação está calma no momento e que o país irá respeitar o cessar-fogo temporário.
Segundo ela, o governo quer garantir que os civis que queiram deixar a zona de conflito tenham a oportunidade de fazê-lo durante esse período.
Além disso, o governo ofereceu anistia para os separatistas rebeldes que estejam preparados para entregar suas armas.
Questionada sobre os relatos de que as forças russas estariam se dirigindo para a Ossétia do Sul, a ministra afirmou que o envolvimento militar da Rússia deve parar.
Conflitos
O premiê da Geórgia, Lado Gurgenezide, afirmou que a Geórgia havia perdido a paciência com os ataques das milícias separatistas nos últimos dias e precisou fazer uma ofensiva para “restabelecer a paz na região”.
Os combates começaram poucas horas depois de acertado um cessar-fogo em conversações mediadas pela Rússia. Cada lado culpa o outro pela quebra do cessar-fogo.
Segundo o premiê georgiano, Lado Gurgenzide, as operações militares na Ossétia do Sul irão continuar até que seja estabelecida a “paz estável”.
“Assim que a paz estável for conquistada, iremos seguir adiante com o diálogo e com as negociações pacíficas”, afirmou.
A violência despertou temores de uma nova guerra na volátil região do Cáucaso. A Otan, os Estados Unidos e a União Européia pediram o fim imediato das hostilidades.
A ONU convocou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança para discutir a escalada da tensão na região, mas o encontro fracassou em emitir um comunicado pedindo a renúncia do uso da força dos dois lados.
O premiê russo, Vladimir Putin, que está na China para a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, afirmou que a Rússia irá reagir às “ações agressivas” da Geórgia.
A Geórgia acusa a Rússia de armar os rebeldes da Ossétia do Sul, que tentam a separação desde a guerra civil da década de 90, quando a região declarou sua independência. Moscou nega essas acusações.
A Rússia está insatisfeita com a ambição da Geórgia de integrar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, a aliança de defesa ocidental), e acusou o país de concentrar suas forças em torno das regiões separatistas, onde tropas de paz russas estão estacionadas.
Conflito
Depois da queda da União Soviética, em 1991, a Geórgia votou pela restauração da independência que havia brevemente experimentado durante a Revolução Bolchevique.
No entanto, a postura nacionalista refletiu em problemas com a região norte da fronteira da Geórgia, habitada pelos ossetas – um grupo étnico distinto natural das planícies russas, ao sul do rio Don.
A Ossétia do Sul fica do lado georgiano da fronteira, enquanto a Ossétia do Norte fica em território russo. Apesar disso, os laços entre as duas regiões permaneceram fortes e o movimento pela independência osseta foi estimulado pelas dificuldades enfrentadas na época dos czares, no período comunista até atualmente.
Quando a Geórgia se separou da União Soviética, o governo nacionalista proibiu o partido político da Ossétia do Sul, o que levou os ossetas a boicotarem a política georgiana e realizarem suas próprias eleições – pleito que foi considerado ilegal pela Geórgia.
Os conflitos entre os separatistas e as forças georgianas começaram nesta época, mas o Exército da Geórgia não exterminou os rebeldes ossetas por medo de uma intervenção russa.
A Ossétia do Sul proclamou sua independência em 1992, mas sua autonomia não foi reconhecida pela comunidade internacional. A região quer ser agregada à Federação Russa, assim como a Ossétia do Norte.
A situação está frágil desde 1990 e se agravou ainda mais há quatro anos, quando os georgianos começaram a realizar operações policiais e de combate ao contrabando na região.