29 de dezembro, 2007 - 12h54 GMT (10h54 Brasília)
Partidários da ex-primeira-ministra do Paquistão, Benazir Bhutto, assassinada em um comício em Rawalpindi, rejeitaram neste sábado a explicação do governo sobre sua morte e pediram uma investigação independente.
As autoridades dizem que ela morreu vítima de um ferimento na cabeça, que bateu quando tentava sair do teto solar do carro em que viajava para escapar da explosão, e não por causa de tiros ou de fragmentos da explosão provocada por um militante suicida.
Mas a porta-voz do Partido do Povo do Paquistão (PPP), Sherry Rehman, disse que a explicação oficial é "um absurdo perigoso pois sugere que não houve tentativa de assassinato". Segundo ela, as autoridades estão tentando se esquivar da responsabilidade pela segurança de Bhutto.
"Havia um ferimento a bala claro na nuca. Ía de um lado e saía de outro (...) Meu carro inteiro está coberto com o sangue dela, minhas roupas, todo mundo - então ela não machucou a cabeça no teto solar", afirmou.
O porta-voz do Ministério do Interior, Javed Iqbal Chima, insistiu que todas as medidas possíveis para a segurança de Bhutto foram tomadas e que se ela tivesse permanecido dentro do carro poderia ter sobrevivido.
'Al-Qaeda'
A versão do governo sobre a autoria do assassinato também foi contestada neste sábado. Um porta-voz de um chefe tribal do Waziristão do Sul, Baitullah Mehsud, negou que ele tenha qualquer envolvimento na morte de Bhutto.
A área, na fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão, é conhecida por dar abrigo a militantes do Talebã e da rede extremista al-Qaeda.
O Ministério do Interior do Paquistão havia dito que interceptou uma mensagem de Mehsud, que descreveu como "um líder da al-Qaeda", em que supostamente ele teria cumprimentado seus agentes pelo atentado.
"É contra a tradição e os costumes tribais atacar uma mulher", disse o maulana Omar, em nome de Baitullah Mehsud.
Acredita-se, contudo, que militantes da al-Qaeda e do pró-Talebã estão por trás de vários atentados a bomba no Paquistão nos últimos anos, em que centenas de pessoas morreram - inclusive mulheres.
Violência
Enquanto isso o clima continua tenso no Paquistão. Soldados patrulham as ruas de várias cidades neste sábado para tentar conter manifestações violentas. Pelo menos 38 pessoas morreram em distúrbios desde o assassinato de Bhutto na quinta-feira.
Vários veículos queimados ocupam as ruas desérticas da cidade onde nasceu Bhutto, Larkana, neste sábado, depois de uma madrugada de violência.
A ex-primeira-ministra e líder oposicionista foi sepultada na sexta-feira no mausoléu de sua família. O líder oposicionista rival de Bhutto, Nawaz Sharif, visitou o local neste sábado.
Eleições
A comissão eleitoral no Paquistão convocou uma reunião de emergência para segunda-feira para discutir se devem ou não ser adiadas as eleições parlamentares marcadas para 8 de janeiro.
Segundo a comissão, a violência que se seguiu à morte de Bhutto prejudicou os preparativos para o pleito.
Nawaz Sharif disse que seu partido boicotará as eleições.
Segundo ele, o assassinato de Benazir Bhutto torna impossível a continuação da campanha eleitoral. Sharif também argumenta que eleições justas e livres não podem ocorrer enquanto o presidente, Pervez Musharraf, estiver no poder.
Quando Sharif foi primeiro-ministro do Paquistão, ele tentou prender Benazir Bhutto devido a acusações de corrupção.
No entanto, segundo o correspondente da BBC em Naudero, Owen Bennett-Jones, Sharif agora tenta associar sua campanha à memória da política assassinada.
Anteriormente, em Washington, um porta-voz do Departamento de Estado americano havia dito que as eleições não devem ser adiadas, se puderem ser realizadas com segurança.