30 de dezembro, 2006 - 17h27 GMT (15h27 Brasília)
Mais de 70 pessoas morreram em atentados no Iraque neste sábado, depois da execução de Saddam Hussein, enforcado no início da manhã, em Bagdá.
Em um dos episódios mais graves, em Hurriya, bairro de maioria xiita de Bagdá, explosões mataram 37 pessoas.
Outras 31 pessoas morreram e pelo menos 45 ficaram feridas na explosão de uma bomba na cidade de Kufa, no sul do Iraque.
Uma multidão enfurecida matou um homem que, segundo a polícia, saiu de um veículo logo após a explosão.
Kufa, localizada a cerca de 170 km ao sul de Bagdá, é uma das cidades mais importantes para os xiitas iraquianos. A cidade é um dos redutos do clérigo radical Moqtada Al-Sadr.
De acordo com a agência de notícias AFP, este tipo de ataque a bomba a xiitas no Iraque é normalmente atribuído a grupos insurgents sunitas, como a Al-Qaeda ou o Exército Islâmico do Iraque, que é comumente ligado ao extinto partido de Saddam Hussein, o Baath.
Tropas americanas
Em meio ao aumento da violência, as forças americanas anunciaram a morte de outros seis soldados, elevando para 109 o número de mortos apenas neste mês. Dezembro já é o mês com o maior número de mortes nas tropas americanas no Iraque nos últimos dois anos.
Mas apesar dos atentados deste sábado, analistas ouvidos pela BBC Brasil acreditam que a execução de Saddam Hussein não deve ter grandes impactos de longo prazo no Iraque.
Eles admitem que há um risco significativo de episódios de violência em retaliação à morte do ex-presidente, mas dizem que não o suficiente para alterar significativamente o grau de violência no país.
“Já há ataques acontecendo diariamente no Iraque e não são as reações destes sadamistas e baathistas que vão alterar tanto as coisas. Na verdade, eles só respondem por cerca de 10% dos grupos insurgentes”, diz o pesquisador iraquiano Mustafa al-Ani, do Centro de Pesquisas do Golfo, em Dubai.
Reações
Saddam Hussein foi executado por crimes contra a humanidade. Saddam e outros dois réus haviam sido condenado à morte no dia 5 de novembro, pelo assassinato de 148 pessoas, a maioria xiitas, na cidade de Dujail, em 1982.
A notícia da execução do ex-líder iraquiano provocou reações diversas ao redor do mundo.
O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, considerou a morte de Saddam "um marco importante".
"Hoje Saddam Hussein foi executado depois de receber um julgamento justo - o tipo de Justiça que ele negou às vítimas de seu regime brutal", disse o presidente americano.
"A execução de Saddam Hussein ocorre no fim de um ano difícil para o povo iraquiano e para as nossas tropas. Levar (Saddam) à Justiça não vai pôr fim à violência no Iraque, mas é um marco importante na trajetória do país para se tornar uma democracia que pode se governar, sustentar e defender e ser uma aliada na guerra contra o terror."
Para o Hamas, partido que comanda a Autoridade Palestina, a execução de Saddam Hussein foi um "assassinato político". "Ele era um prisioneiro de guerra e seu assassinato viola todas as leis internacionais que deveriam proteger prisioneiros de guerra", disse Fawzi Barhum, um porta-voz do Hamas. Na Líbia, o governo declarou três dias de luto oficial e também classificou Saddam como um "prisioneiro de guerra".
Brasil
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a execução. "Não sei se foi um julgamento ou uma vingança. De qualquer forma, acho que não resolve o problema do Iraque. Acho que a violência vai continuar", afirmou Lula.
Lula também criticou a intervenção dos Estados Unidos no Iraque. "Enquanto houver gente dando palpite no problema do Iraque, ele não vai dar certo. Não daria certo no Brasil, na Argentina na Rússia e muito menos nos Estados Unidos. Os que estão ocupando o Iraque têm que ter consciência de que o Iraque só vai encontrar a paz quando permitirem que as divergências internas sejam resolvidas pelo povo."
A Arábia Saudita e o Egito expressaram consternação pelo fato de que Saddam tenha sido executado no primeiro dia do Eid-al-Adha, o principal feriado religioso muçulmano, que coincide com o Hajj.
Uma declaração do ministro de Relações Exteriores do Egito afirma que a data escolhida para a execução mostra desprezo pelos sentimentos dos muçulmanos ao redor do mundo.
Diversos outros países, como Grã-Bretanha, França, Itália, Alemanha e Rússia, reforçaram suas posições contra a pena de morte. O Vaticano afirmou que a execução era trágica e trazia o risco de "plantar novas sementes da violência".