04 de dezembro, 2006 - 11h29 GMT (09h29 Brasília)
A situação no Iraque ficou "muito pior" do que uma guerra civil, segundo o secretário-geral da ONU Kofi Annan.
Annan, que deixa o cargo depois de dez anos no dia 31 de dezembro, afirmou à BBC que a vida para o iraquiano comum é, atualmente, pior do que sob o regime de Saddam Hussein.
Dizendo sentir tristeza por não ter conseguido evitar a guerra, ele pediu a ajuda de poderes regionais e internacionais para o Iraque.
Annan também fez um apelo para o seu sucessor, o sul-coreano Ban Ki-Moon, cuidar da situação "do seu jeito".
'Matança'
Quando perguntado por Lyse Doucet, da BBC, se a situação no Iraque poderia ser classificada de guerra civil, Annan afirmou que o nível de "matança e amargura" e a forma como as forças estão organizadas atualmente no Iraque faz com que uns fiquem contra os outros.
"Há alguns anos, quando tínhamos o conflito no Líbano e outros lugares, chamávamos de guerra civil. Isto é muito pior."
"Temos uma situação muito preocupante em larga escala no Oriente Médio", disse Annan, associando os conflitos atuais no Líbano e Iraque ao conflito entre israelenses e palestinos e as tensões no Irã.
O secretário-geral da ONU admitiu que o fracasso de impedir a invasão liderada pelos Estados Unidos, em 2003 no Iraque, foi um golpe duro contra a ONU, um golpe do qual a organização apenas está começando a se recuperar.
"Estamos nos recuperando, mas a ferida ainda não foi cicatrizada, e sentimos que a tensão ainda está na organização, como resultado", disse.
Annan descreveu a atual situação no Iraque como "extremamente perigosa" e se solidarizou com a situação dos iraquianos.
"Se eu fosse um cidadão comum no Iraque, obviamente eu faria a mesma comparação, eles tinham um ditador que era brutal, mas pelo menos eles podiam sair, ir às ruas, seus filhos poderiam ir à escola e voltar para casa sem seus pais temerem: 'Vou ver meu filho de novo?'"
"A sociedade precisa de segurança e um ambiente seguro para progredir – sem segurança não se pode fazer muito – nem recuperação nem reconstrução."
'Sem escolha'
Annan, um ganense que começou a trabalhar na ONU em 1962, se transformou no primeiro secretário-geral africano em 1997.
Os anos antes de assumir o cargo foram marcados pelo genocídio em Ruanda e pela limpeza étnica durante a guerra na antiga Iugoslávia.
Apesar da ONU ter prometido que este tipo de incidente "nunca mais" aconteceria, depois do genocídio de Ruanda e do massacre em Sbrenica, a organização não conseguiu pôr um fim à crise de três anos na região de Darfur, no Sudão, onde mais de 200 mil pessoas teriam morrido.
"É profundamente, profundamente decepcionante e trágico. Mas não temos os recursos ou a escolha para enfrentar a situação", disse Annan.
Annan disse que vai trabalhar para que o governo do Sudão permita a entrada de forças de paz da ONU na região até o último momento em que estiver no cargo e deixou um conselho para Ban Ki-Moon:
"Ele deve fazer do jeito dele. Eu fiz do meu jeito, meus predecessores fizeram do jeito deles e ele deve fazer tudo do jeito dele."