23 de novembro, 2006 - 22h37 GMT (20h37 Brasília)
Pelo menos 160 pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas em uma série de ataques nesta quinta-feira no bairro de Cidade Sadr, no leste da capital do Iraque, Bagdá.
Houve três ataques com carros-bomba e uma série de explosões de morteiros, uma das mais devastadoras ondas de ataques no Iraque desde a invasão liderada pelos Estados Unidos em março de 2003.
Habitada majoritariamente por muçulmanos xiitas e pobres, Cidade Sadr tornou-se nos últimos meses alvo freqüente de ataques, principalmente de insurgentes sunitas.
A violência entre xiitas e sunitas no Iraque vem piorando desde que uma mesquita xiita foi bombardeada em Samarra, em fevereiro deste ano.
Revolta
Alguns moradores voltaram a revolta contra o primeiro-ministro iraquiano, Nouri Al-Maliki, ele mesmo um xiita acusado de não conseguir controlar a violência contra o grupo, que é majoritário no Iraque.
Maliki fez um pronunciamento de TV, responsabilizando radicais sunitas e seguidores do ex-presidente Saddam Hussein pelos ataques.
"Este crime reflete o sério risco à irmandade muçulmana representado por terroristas que estão tentando detonar brigas sectárias", afirmou Maliki na televisão estatal.
Líderes das comunidades xiita, sunita e curda - as três principais do país - também foram à televisão fazer um apelo à calma depois de uma reunião de emergência com o embaixador de Washington no Iraque, Zalmay Khalilzad.
A Casa Branca também condenou os ataques, destinado a "minar as esperanças do povo iraquiano por um Iraque pacífico e estável", nas palavras da porta-voz Jeanie Mamo.
Maliki tem um encontro previsto com o presidente americano, George W. Bush, na semana que vem em Amã, na Jordânia.
Depois das explosões, as autoridades do Iraque instituíram um toque de recolher em Bagdá e o fechamento do aeroporto internacional por tempo indeterminado.
Ainda como reflexo dos ataques, o governo ordenou o fechamento dos portos e aeroportos de Basra, segunda maior cidade do Iraque, praticamente fechando o acesso ao país.
Mercado
Na primeira explosão, por volta de 15h no horário local (10h em Brasília), um carro explodiu no mercado de alimentos, onde testemunhas afirmaram a jornalistas que o chão ficou coberto de corpos queimados e carne humana.
Esta explosão foi seguida por outras duas com intervalos de 15 minutos entre elas, segundo o correspondente da BBC em Bagdá David Loyn.
O mercado estava lotado e a bomba explodiu em uma área onde as pessoas se reuniam para pegar ônibus.
"Eu estava fazendo compras. Quando as bombas explodiram, todo mundo começou a correr e a gritar", disse o fotógrafo Kareem al-Rubaie à agência de notícias Reuters.
"Eu vi um carro (que vinha) de uma festa de casamento. Estava em chamas. Havia poças de sangue na rua e crianças mortas no chão."
O ataque causou um incêndio que gerou pânico na população. As explosões destruíram ruas inteiras, deixando corpos espalhados entre os destroços.
O número de feridos causou problemas no sistema hospitalar e de transporte da capital iraquiana.
Segundo a agência de notícias Associated Press, moradores e milicianos xiitas armados foram para as ruas, amaldiçoando muçulmanos sunitas.
Logo depois das explosões, dezenas de morteiros teriam atingido o bairro de Adhamiya, uma área predominantemente sunita.
Ministério
Antes dos atentados, o Ministério da Saúde do Iraque foi atacado por homens armados que trocaram tiros com tropas do governo. Cinco pessoas ficaram feridas.
De acordo com relatos vindos da capital iraquiana, o prédio do ministério teria sido atingido por morteiros e tiros de metralhadora, depois que os agressores cercaram o edifício.
Ainda não há notícias de mortos nos confrontos, mas segundo a agência de notícias Reuters, o vice-ministro da Saúde, Hasan Zamili, teria pedido a pronta ação das autoridades, mas os comandantes teriam demorado para responder.
Zamili sofreu um atentado nesta semana, onde dois de seus guarda-costas morreram.
“Terroristas estão atacando o edifício com morteiros, metralhadoras e podemos ver franco-atiradores. Qualquer funcionário que tentar deixar o prédio será morto”, descreveu Zamili quando ainda estava preso no prédio.
Os homens armados teriam fugido quando tropas iraquianas e helicópteros americanos chegaram ao local, conforme relatou à agência France Presse o porta-voz do ministério, Qassim Yehyah.
O Ministério da Saúde iraquiano é controlado por xiitas, e o confronto teria durado cerca de três horas, ainda segundo a France Presse.
Este é o segundo ataque a prédios do governo iraquiano nos últimos dias. Na semana passada, dezenas de funcionários públicos foram levados do Ministério da Educação por insurgentes.