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17 de outubro, 2006 - 15h57 GMT (12h57 Brasília)

ONU segue dividida entre Venezuela e Guatemala

Os 192 membros da Assembléia Geral da ONU retomaram nesta terça-feira a maratona de votações iniciada no dia anterior, mas ainda não chegaram a um acordo sobre quem deve ocupar uma das vagas da América Latina no Conselho de Segurança das Nações Unidas: Guatemala ou Venezuela.

Nenhum dos dois países conseguiu reunir o número de votos necessários para se tornar o representante que substituirá a Argentina em um dos dois assentos rotativos reservados aos países latino-americanos no Conselho. O outro país da região é o Peru, cujo mandato expira no próximo ano.

Na votação mais recente, a 21ª em dois dias, a Guatemala, que conta com o apoio dos Estados Unidos, recebeu 101 votos. A Venezuela ficou com 79. Houve 12 abstenções.

Para assegurar a vaga, um dos países precisa obter dois terços dos votos válidos na Assembléia Geral da ONU. Na última votação, esse número equivalia a 120 dos 192 votantes (abstenções são descontadas).

A Guatemala liderou todas as votações até agora, à exceção de uma rodada da segunda-feira, em que houve empate.

Guatemala e Venezuela deverão continuar se enfrentando em novas rodadas de votação até que um acordo seja alcançado, de acordo com uma porta-voz da Assembléia Geral.

Posição brasileira

A candidatura da Venezuela tem o apoio do Brasil e dos demais membros do Mercosul. O país também recebeu o aval tácito da Rússia e da China, dois membros permanentes do Conselho, e de países africanos.

Para a missão brasileira na ONU, é natural que o Brasil apóie a Venezuela pela sua condição de membro pleno do Mercosul, mas a representação brasileira ressalva que mantém "excelentes relações com a Guatemala".

Os Estados Unidos fazem campanha em favor da Guatemala.

Um impasse semelhante, ocorrido entre Cuba e Colômbia em outubro de 1979, se estendeu por mais de dois meses até a eleição de um terceiro candidato, o México.

"Resistência"

Desta vez, chegou-se a sugerir a candidatura do Uruguai para a vaga, mas a Venezuela não parece disposta a desistir tão cedo da disputa.

"Com o exemplo do povo vietnamita (durante a Guerra do Vietnã) como podemos desistir em um dia?", afirmou o embaixador do país na ONU, Francisco Arias Cardenas, segundo a agência de notícias France Presse.

"Com o exemplo da resistência de outros povos, do povo coreano, como podemos desistir em um dia?", insistiu Cardenas.

Por sua vez, o ministro do Exterior da Guatemala, Gert Rosenthal, disse que o país é "uma voz independente", rejeitando insinuações de que seria submisso aos Estados Unidos.

De acordo com a missão brasileira na ONU, o Brasil não cogita mudar sua posição nem apoiar um terceiro candidato de consenso. Ainda segundo a representação, caberá à Assembléia Geral tomar uma providência se o "padrão de votação continuar".

O correspondente da BBC em Nova York Luis Sarmiento informa que a eleição criou um ambiente de polarização na ONU. A Venezuela é acusada de praticar a “petrodiplomacia”, oferecendo benefícios no comércio de petróleo a países que apoiam a sua candidatura.

Já a Guatemala, diz o correspondente, tem sido duramente criticada por sua aproximação com os Estados Unidos. Sua autonomia no momento das votações cruciais no Conselho é colocada em dúvida.

Por outro lado, há países que vêem na escolha da Venezuela uma fonte de instabilidade para o Conselho dadas as tensões permanentes entre Caracas e Washington.

Muitos ainda têm fresco na memória o último discurso do presidente Hugo Chávez na ONU, em que ele chamou o presidente americano, George W. Bush, de "diabo".

Divisão

Para analistas, o que está claro é que há uma divisão no Grupo da América Latina e do Caribe (Grulac), que normalmente firma acordos com antecedência para escolher seu candidato.

O Conselho de Segurança tem 15 integrantes, sendo que cinco deles são permanentes e têm direito a veto: Estados Unidos, China, França, Grã-Bretanha e Rússia.

Os outros dez integrantes ocupam assentos por mandatos de dois anos. Desse grupo, cinco são eleitos a cada ano.

A maior parte das decisões no Conselho de Segurança, o mais poderoso da organização, é tomada pelos cinco membros permanentes, mas uma resolução só é aprovada se receber pelo menos nove votos e não pode ser vetada por nenhum dos membros permanentes.

As votações relativas a outras regiões foram encerradas na segunda-feira e resultaram na eleição de África do Sul, Itália, Indonésia e Bélgica. Esses países deverão substituir Tanzânia, Japão, Dinamarca e Grécia.

Os novos membros rotativos do Conselho deverão assumir suas cadeiras no órgão no dia 1º de janeiro.