27 de setembro, 2006 - 11h12 GMT (08h12 Brasília)
O ex-arcebispo sul-africano Desmond Tutu, detentor do prêmio Nobel da Paz de 1984, disse que seu país não conseguiu manter o idealismo que pôs fim ao regime de apartheid.
Tutu advertiu contra o risco crescente de divisões étnicas como as que afetaram países como Ruanda e Bósnia.
Referindo-se ao índice de assassinatos na África do Sul, que é um dos mais altos do mundo, e de estupro de crianças de até nove meses, Tutu disse que a reverência africana pela vida se perdeu.
O sul-africano, que foi arcebispo anglicano da Cidade do Cabo, esteve à frente da luta contra o regime de minoria branca do país, e é cada vez mais crítico do atual governo.
Ele acusou o governo de ter perdido sua direção moral. Tutu se opõe à possível candidatura do ex-vice-presidente Jacob Zuma à presidência por "suas falhas morais".
Zuma foi inocentado da acusação de estupro em meados deste ano. Na semana passada, um tribunal rejeitou uma ação por fraude e corrupção contra ele.
Respeito à lei
Tutu disse que o país conquistou um notável grau de estabilidade em 12 anos de democracia, apesar de problemas como pobreza, Aids, corrupção e criminalidade.
Mas, em palestra em memória ao líder anti-apartheid Steve Biko na Universidade da Cidade do Cabo, perguntou por que o respeito à lei, ao meio ambiente e até à vida estão em falta na África do Sul.
"O que aconteceu conosco?", perguntou, dizendo que "direitos vão de mãos dadas com responsabilidade, com dignidade, com respeito por si mesmo e pelo outro".
"A questão é que, infelizmente, nós não respeitamos um ao outro", afirmou.
Segundo ele, representantes do governo agem com freqüência como ex-funcionários da era do apartheid, tratando as pessoas com desdém.
Segundo Tutu, a África do Sul deveria se opor à xenofobia, cuidar de seu próprio ambiente e de seus conterrâneos.
"Talvez nós não percebemos como o apartheid nos prejudicou então parece que nós perdemos o nosso senso de certo e errado, então, quando entramos em greve, como é nosso direito de fazer, não ficamos horrorizados pelo fato de que alguns de nós podem jogar pessoas para fora de trens em movimento porque elas não aderiram à greve."
Tutu afirmou que a África do Sul continua sendo um país maravilhoso, que produziu pessoas notáveis como Steve Biko, morto sob custódia da polícia em 1977.
"A melhor homenagem póstuma a Steve Biko seria uma África do Sul onde todo mundo se respeita, que tenha uma auto imagem positiva forjada com auto estima adequada e que mantenha os outros em alta estima."