25 de setembro, 2006 - 14h28 GMT (11h28 Brasília)
O papa Bento 16 se encontrou com enviados de nações muçulmanas, em uma tentativa de contornar a crise nas relações entre o Vaticano e o Islã, causada por uma palestra feita pelo sumo pontífice na Alemanha no início deste mês.
O papa expressou “total e profundo respeito” pela fé muçulmana e disse que o diálogo entre as duas religiões é vital para o futuro.
Em resposta, o embaixador do Iraque, Albert Yelda, disse que "era tempo de deixar o ocorrido para trás e construir pontes entre as religiões".
"O papa destacou seu profundo respeito pelos muçulmanos em todo o mundo. Isto era o que estávamos esperando", acrescentou o diplomata.
O encontro buscou a reconciliação depois das reações tensas de comunidades muçulmanas em várias partes do mundo e de diversas exigências de retratação.
No discurso que fez na universidade de Regensburg, Bento 16 citou um texto do século 14 que definia Maomé como portador de "coisas más e desumanas como a difusão da fé por meio da espada".
Diálogo bem-vindo
O encontro desta segunda-feira ocorreu na residência do papa, perto de Roma.
Embaixadores de 21 países e um representante da Liga Árabe participaram. Dos embaixadores convidados, apenas o do Sudão não compereceu ao encontro.
“Gostaria de sublinhar o meu total e profundo respeito pelos muçulmanos”, disse o papa.
Bento 16 pediu um diálogo sincero e respeitoso e afirmou que ambas as religiões deveriam rejeitar todas as formas de violência.
Ele citou seu antecessor, João Paulo 2º, dizendo que o mundo precisa de “reciprocidade em todos os campos”.
Mario Scialoja, conselheiro da divisão italiana da Liga Mundial Muçulmana, que participou da reunião, disse à agência de notícias Reuters que o discurso do papa foi "muito bom e caloroso".
"Ele recordou as diferenças mas exprimiu sua vontade de continuar em um diálogo cordial e frutífero", disse Scialoja, que acrescentou que não esperava outro pedido de desculpas.
Mohammed Nour Dachan, presidente de um dos vários grupos muçulmanos italianos, que também participou da reunião, afirmou à agência de notícias AFP que a mensagem de Bento 16 foi "clara".
"Diálogo é uma prioridade para muçulmanos assim como é para os cristãos", afirmou, acrescentando que, pelo menos para seu grupo, o capítulo da polêmica cercando os comentários do papa na Alemanha já tinha sido encerrado antes da reunião desta segunda-feira.
Mas o embaixador da Indonésia, a maior nação muçulmana do mundo, disse à BBC que o papa não fez referência direta à palestra realizada na Alemanha e que causou a controvérsia.
"Esperávamos que houvesse um diálogo (durante o encontro), mas não foi o caso", disse Bambang Prayitno.
"Não houve uma conversa entre o papa e seus convidados...em geral, ficamos um pouco surpresos pele duração curta do encontro", disse ele.
Depois de seu discurso, o papa cumprimentou todos os enviados, um a um.
Entre os que presenciaram o encontro, estavam o cardeal Paul Poupard, chefe do Conselho de Diálogo Inter-Religioso, representantes muçulmanos na Itália e embaixadores muçulmanos no Vaticano.
De acordo com Poupard, o encontro era um sinal de que o “chamado do Santo Papa por um diálogo entre culturas e religiões foi bem aceito”.
Ponto de partida
Yahya Pallavicini, vice-presidente de uma das principais organizações islâmicas da Itália, a Comunidade dos Religiosos Islâmicos, disse esperar que a reunião “fosse o ponto de partida para um diálogo” para fiéis e estudiosos das religiões católica, judaica e muçulmana.
José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Européia, defendeu o papa, dizendo que mais líderes europeus deveriam seguir seu exemplo.
“Fico desapontado que mais líderes europeus não tenham vindo a público e dito: ‘Naturalmente, o papa tem direito de expressar seus pontos de vista'”, teria afirmado Barroso, segundo o jornal alemão Welt am Sonntag.
“O problema não são os comentários do papa, mas a reação dos extremistas”.
“Mal-entendido”
O pontífice disse ter lamentado as reações ao discurso feito no sul da Alemanha no começo deste mês.
Na quarta-feira, o papa afirmou que foi “mal-interpretado” no discurso da Bavária.
Falando de guerra santa, o papa citou o Manuel 2º, Imperador cristão ortodoxo que na Idade Média dominava Bizâncio, área que compreende a atual Turquia.
"Mostre-me tudo o que Maomé trouxe de novidade, e encontrarás apenas coisas más e desumanas, como sua ordem de espalhar com a espada a fé que ele pregava", teria dito o imperador católico, segundo Bento 16.
Segundo o papa, a sua real intenção era a de dizer que “religião e violência não andam juntas, mas que religião e razão, sim”.