15 de setembro, 2006 - 17h26 GMT (14h26 Brasília)
Um comunicado do Vaticano não foi suficiente para aplacar as reações de líderes islâmicos de todo o mundo a uma citação supostamente anti-islâmica feita pelo papa Bento 16 em uma conferência na Alemanha.
Falando de guerra santa em uma universidade alemã, na terça-feira, o papa citou um imperador cristão ortodoxo do século 14 que afirmava que o profeta Maomé só havia trazido "coisas más e desumanas".
As declarações geraram reações iradas em todo o mundo, levando o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, a dizer que Bento 16 nunca teve a intenção de ofender muçulmanos ao repetir aquelas palavras.
Lombardi disse que a Igreja deseja "cultivar uma posição de respeito e diálogo com outras religiões e culturas, e isso claramente inclui o Islã".
Repercussão
Mas a justificafiva não teve o efeito desejado.
Nesta sexta-feira, o governo do Paquistão chamou o embaixador do Vaticano no país para pedir explicações.
Um comunicado do Ministério do Exterior paquistanês classificou os comentários de Bento 16 de "altamente perturbadores" para os muçulmanos.
Horas depois, o Parlamento paquistanês aprovou por unanimidade uma resolução recriminando o papa Bento 16 por suas palavras e exigindo um pedido de desculpas do pontífice.
"Os comentários depreciativos do papa sobre a filosofia da jihad (guerra santa) e do profeta Maomé feriram sentimentos em todo o mundo islâmico e podem gerar um mal-estar entre as religiões", dizia a resolução, citada pela agência de notícias France Presse.
Revolta
O líder da Irmandade Muçulmana do Egito, Mohammed Mardi Akef, disse que as palavras do papa causaram "revolta em todo o mundo islâmico" e representam "crenças erradas e distorcidas que estão sendo disseminadas no Ocidente".
Para Youssef al-Qardawi, um proeminente clérico muçulmano no Catar, ouvido pela agência Reuters, os muçulmanos têm o direito de se sentir ofendidos pelos comentários do papa.
"Queremos que o papa peça desculpas à nação islâmica por ter insultado sua religião, seu profeta e suas crenças", afirmou ele.
No Irã, um influente clérigo, Ahmad Khatami, disse: "É lamentável que o líder religioso dos cristãos tenha tão pouco conhecimento do Islã, e que fale sem vergonha disso".
Os comentários do papa também foram desmerecidos nas preces de sexta-feira no Iraque.
Vaticano
A polêmica em torno das declarações de Bento 16 acontece num dia importante para o Vaticano, quando o cardeal Tarcisio Bertone assume o posto de secretário de Estado.
Nesta sexta-feira, Bento 16 nomeou também para o posto de ministro de Exterior o arcebispo Dominique Mamberti, nascido no Marrocos e radicado na França.
O correspondente da BBC em Roma, David Willey, disse que o papa ficou aborrecido com a interpretação dada a sua palestra foi interpretada.
A conferência onde Bento 16 fez suas declarações tratava das diferenças históricas e filosóficas entre o Islã e o Cristianismo, além da relação entre violência e fé.
Frisando que as palavras não eram suas, o sumo pontífice católico citou um imperador cristão do Império Bizantino, que teria dito: "Mostre-me tudo o que Maomé trouxe de novidade, e encontrarás apenas coisas más e desumanas, como sua ordem de espalhar com a espada a fé que ele pregava".
Durante a palestra, o papa acrescentou que "a violência é incompatível com a natureza de Deus e a natureza da alma".
"A intenção aqui não é fazer uma crítica negativa, mas ampliar nosso conceito de argumentação e sua aplicação. Só assim seremos capazes de um diálogo genuíno entre culturas e religiões, tão necessário nos dias de hoje", concluiu o pontífice.
Visita à Turquia
O papa tem uma viagem à Turquia planejada para o mês de novembro que, segundo o Vaticano, acontecerá como o planejado.
Mas a repercussão das palavras do papa no país - predominantemente muçulmano - não foi boa.
O líder religioso turco Ali Bardakoglu fez questão de lembrar as atrocidades cometidas pelos cruzados romanos contra cristãos ortodoxos e judeus, assim como muçulmanos, na Idade Média.
Ele também afirmou que os comentários de Bento 16 refletiam "um ponto de vista repugnante, hostil e preconceituoso", e afirmou esperar que as palavras não espelhassem "ódio no coração" do papa.