12 de setembro, 2006 - 17h18 GMT (14h18 Brasília)
Um homem que escapou da morte durante os ataques das tropas de Saddam Hussein à população curda, em 1988, zombou do ex-presidente iraquiano ao falar como testemunha de acusação no julgamento do ex-líder.
O curdo Ghafour Hassan Abdullah contou sua experiência de encontrar os documentos de identidade de sua mãe e duas irmãs em um túmulo ao lado de outros corpos.
Abdullah gritou: "Parabéns Saddam Hussein! Agora você está em uma jaula!"
Saddam Hussein e seis ex-assessores estão sendo julgados por crimes de guerra contra os curdos. O caso foi adiado até quarta-feira.
Os réus são acusados de matar mais de 180 mil civis durante a campanha Anfal, realizada entre 1987 e 1989 na região do Curdistão.
Saddam Hussein e seu primo, Ali Hassan al-Majid, são acusados também de genocídio.
Países neutros
Ghafour Abdullah disse ao tribunal que tropas bombardearam seu vilarejo, próximo a cidade curda de Sulaimaniya, em fevereiro de 1988.
"Durante a noite eu escutei gritos de mulheres e crianças", disse Abdullah.
Ele disse ter escapado em direção ao Irã com outros parentes, mas sua mãe e duas irmãs desapareceram. Anos depois, seus documentos de identidades foram encontrados em uma vala a 200 km do vilarejo.
"Eu não sei porque essa tragédia aconteceu conosco. É somente pelo fato de sermos curdos?" - questionou a testemunha.
Saddam Hussein ouviu o depoimento em silêncio, mas exaltou-se quando um dos promotores descreveu os guerrilheiros pershmergas curdos como "guerreiros da liberdade".
"Rebelião é rebelião. Mostre-me um país onde uma rebelião não foi combatida com o uso do Exército", disse Saddam.
O ex-líder iraquiano exigiu ainda que "países neutros, como a Suécia" examinem as evidências encontradas nos túmulos.
Saddam satirizou o tribunal, afirmando: "Vocês são agentes do Irã e do sionismo. Nós vamos destruí-los."
Ele e seu primo afirmam que a campanha Anfal foi uma operação legítima, com o objetivo de expulsar tropas iranianas e guerrilhas separatistas do norte do Iraque.
Se considerados culpados, os sete réus podem ser condenados à pena de morte. Esta é a quinta audiência do segundo julgamento de Saddam Hussein.
Ele e outros sete assessores já foram julgados pelo assassinato de 148 moradores do vilarejo xiita de Dujail, em 1982. O veredito será dado em 16 de outubro.