18 de agosto, 2006 - 11h45 GMT (08h45 Brasília)
James Reynolds
de Jerusalém
A “autópsia” pós-guerra de Israel está sendo realizada em público. Parece haver uma regra simples agora: se você tem cargo oficial neste país, há grandes chances de que você tenha saído com a imagem arranhada desse conflito.
Isto certamente se aplica ao primeiro-ministro Ehud Olmert, cuja primeira experiência como líder em tempo de guerra não saiu como ele esperava.
“Quando Olmert entrou nessa guerra, há razões para especular que ele esperava sair dela de uma maneira semelhante à que Margaret Thatcher saiu da Guerra das Malvinas”, diz Amotz Asa-El, colunista do jornal The Jerusalem Post.
“Em outras palavras, uma operação que veio em resposta a um ataque não-provocado cuja ação militar subseqüente foi rápida, decidida e consagradora para qualquer um que a liderasse.”
Mas não foi o que aconteceu. A campanha militar de Israel não atingiu seus objetivos: os soldados do país capturados não foram libertados e o Hezbollah não foi desarmado.
Descontentamento
A poucos passos da fronteira de Israel com o Líbano, crianças brincam no pequeno kibutz Yiron.
Da barreira da fronteira pode-se ver casas de um vilarejo libanês no alto de um morro – com binóculos pode-se até ver dentro de suas janelas.
Muitos israelenses deixaram o kibutz durante o último mês de combates. Agora eles retornaram e estão desapontados com seu primeiro-ministro.
“Olhe, eu acho que fomos para a guerra sem estarmos realmente preparados”, diz Ada Seremy, que vive na comunidade desde 1949.
“Eu acho que tínhamos todo o direito de ir à guerra porque eles (o Hezbollah) estavam realmente fazendo coisas ruins para nós, mas eu acho que quando você decide ir para a guerra você precisa estar preparado.”
Esse descontentamento popular deixa Olmert com um problema muito concreto.
Ele foi eleito no início do ano quase que inteiramente com uma única promessa: terminar o trabalho iniciado pelo ex-premiê Ariel Sharon e determinar as fronteiras definitivas de Israel.
Sharon iniciou o trabalho no ano passado, quando se retirou unilateralmente da Faixa de Gaza. Esperava-se que Olmert terminasse o trabalho nos próximos anos com a retirada de partes da Cisjordânia.
Retirada em xeque
Mas então chegou o verão deste ano, e agora os israelenses não têm certeza se haverá outra retirada.
Na segunda-feira no Parlamento, Ehud Olmert teve dificuldades em convencer sua audiência de que está levando Israel na direção correta.
Ele pode não encontrar muito apoio nem mesmo de seus aliados.
O general Giora Eiland planejou a retirada de Gaza no ano passado, a primeira parte do plano de fronteira de Sharon-Olmert. Mas agora, mesmo este homem, o general fiel, tem dúvidas sobre a parte dois.
“Ao menos 70% a 80% das pessoas em Israel entendem que esta retirada unilateral poderia criar outro grupo na Cisjordânia apoiado pelo Irã assim como o Hezbollah era apoiado no Líbano, e este é um risco que o Estado de Israel não pode correr”, diz Eiland.
'Surdo, estúpido ou cego'
Esse risco pode ser medido pelo cheiro de borracha queimada, com os políticos agora se afastando da política que os elegeu com a mesma velocidade.
No momento, os aliados de Olmert no partido Kadima estão lutando para dizer que eles não tinham nada a ver com a idéia da retirada unilateral de partes da Cisjordânia – e que qualquer um que pense nisso é geralmente louco.
“Para apoiar hoje a retirada unilateral da Cisjordânia, você precisa ser surdo, estúpido ou cego”, disse o ministro Meir Shitrit.
Então, uma questão permanece. Olmert exerceu apenas três meses de seu mandato até aqui. Se ele não puder cumprir sua promessa de definir as fronteiras de Israel, o que fará com os anos que sobram para seu governo?