20 de junho, 2006 - 16h42 GMT (13h42 Brasília)
Um delegado de polícia da Argentina está sendo julgado por assassinato e tortura durante o último regime militar, no primeiro julgamento desde que a anistia às autoridades envolvidas em crimes na época foi suspensa.
A Suprema Corte argentina determinou em 2005 que a imunidade legal para ex-autoridades era inconstitucional.
O julgamento abre o caminho para que centenas de autoridades sejam julgadas por crimes durante a ditadura, entre 1976 e 1983.
Grupos de defesa de direitos humanos afirmam que questões legais e a inércia das instituições significam que apenas agora o primeiro caso irá a julgamento.
O ex-diretor de investigações na força policial de Buenos Aires, Miguel Etchecolatz, é acusado de envolvimento em seis assassinatos, além de tortura prisões ilegais.
O acusado foi levado à corte no começo da manhã de terça-feira para evitar manifestações em frente ao local, segundo a imprensa argentina.
Etchecolatz, de 76 anos, está atualmente em prisão domiciliar por envolvimento com outros crimes cometidos durante o regime militar.
Anistia
Entre 10 mil e 30 mil pessoas foram mortas ou desapareceram enquanto os militares estavam no poder entre 1976 e 1983.
Entre o retorno do governo civil e o governo Carlos Menem (1989-1999), foram concedidas leis de anistia aos crimes ligados à chamada "Guerra Suja", bem como à repressão contra os militantes de esquerda.
A anistia gerou muita polêmica, foi suspensa e então novamente instaurada.
A Suprema Corte tomou a decisão final em 2005 afirmando que a imunidade legal para ex-membros das forças de segurança era inconstitucional.
Mas, desde a decisão da Suprema Corte, apenas poucas datas para julgamentos foram estabelecidas.
"O sistema de justiça é lento e esta é uma situação sem precedentes", disse Daniel Sabsay, um advogado constitucional, à agência de notícias Reuters.
Jorge Watts, que sobreviveu a um centro de detenção clandestino durante a ditadura, disse à Reuters que o tempo está do lado do acusado.
"O problema é que muitos dos repressores estão mortos. Alguns estão vivos para serem julgados, mas as testemunhas estão mortas e é muito mais difícil encontrar provas depois de 30 anos", disse Watts.