02 de junho, 2006 - 13h07 GMT (10h07 Brasília)
O ministro do Exterior do Timor Leste e ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1996, José Ramos Horta, acumulará as pastas da Segurança e do Interior a partir deste domingo.
"Eu sou a única pessoa que pode curar as cicatrizes nas forças armadas, entre as forças as armadas e a polícia e entre as forças armadas e a sociedade em geral", comentou Horta a uma rádio australiana.
A decisão foi tomada pelo presidente timorense, Xanana Gusmão, em uma tentativa de solucionar a crise política no país. Roque Rodriguez e Rogério Lobato, que ocupavam os Ministérios da Defesa e do Interior, respectivamente, pediram demissão na quinta-feira.
A medida isola ainda mais o primeiro-ministro do Timor Leste, Mari Alkatiri, que, em março, demitiu um grupo de 600 soldados que protestavam contra discriminação por virem da parte oeste do país.
Pela maior proximidade com a Indonésia, distritos no lado ocidental do Timor Leste sofreram maior influência da ocupação do que distritos na parte leste, de onde vieram muitos heróis da independência timorense.
Essa diferença é uma das razões para as divisões que ainda existem entre a população do pequeno país, o mais pobre do sudeste da Ásia.
Onda de violência
Desde março, o país enfrenta uma onda de violência entre soldados militares, policiais e também entre civis.
Grupos de jovens circulam nas ruas com facões, queimam casas e carros e saqueiam o comércio. Pelo menos 20 pessoas foram mortas e cerca de 50 mil deixaram suas casas em busca de abrigo em igrejas, na sede de ONGs e em embaixadas.
Em torno de 2 mil soldados da Austrália, Nova Zelândia, Malásia e Portugal foram enviados ao país para restaurar a ordem.
Renúncia
Horta e Gusmão, amigos próximos, são reverenciados no país desde a independência da Indonésia, em 1999.
Alkatiri, que é acusado por oposicionistas de ter iniciado a crise política no país, diz que existe uma "tentativa de golpe de estado", embora não diga quem seria responsável, e insiste que não vai deixar o seu cargo.
"Eu não vou renunciar", disse à agência de notícias AFP.
Alkatiri rebate que "não há governo que não cometa erros", mas insiste que não está perdendo apoio popular.
Na quinta-feira, o major comandante Alfredo Reinado, líder do grupo rebelde, pediu que Alkatiri deixasse o governo e disse que o premiê seria alvo de investigação pela morte de nove policiais não armados por soldados militares.
O Timor Leste votou pela independência da Indonésia em um plebiscito organizado pela ONU, em 1999, dando um fim aos 24 anos de ocupação pela Indonésia.
Após o plebiscito, em que a maior parte da população votou pela independência, milícias pró-Indonésia iniciaram uma reação violenta que destruiu boa parte da infraestrutura do país e matou cerca de 1,5 mil pessoas.
O confronto foi desencadeado por diferenças políticas. Embora pertençam à mesma etnia e falem a mesma língua, o país era dividido entre o lado leste e oeste. Aqueles que estavam no oeste eram vistos como pró-indonésios e os do leste, como pró-independência.