04 de fevereiro, 2006 - 01h50 GMT (23h50 Brasília)
Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha criticaram os jornais europeus que republicaram as charges do profeta Maomé que ofenderam muitos muçulmanos e levaram a protestos em vários países.
Em Washington, o Departamento de Estado Americano descreveu as charges como ofensivas e acrescentou que não é aceitável incitar ódio étnico ou religioso.
O ministro das Relações Exteriores britânico, Jack Straw, disse que a liberdade de expressão não confere um comprometimento com o insulto.
As charges apareceram inicialmente no jornal dinamarquês Jyllands-Posten em setembro e foram posteriormente republicadas por jornais de países como Alemanha, Itália, Holanda e Espanha – todos dizendo estar exercendo seu direito à livre expressão.
O Jyllands-Posten pediu desculpas por ter ofendido os muçulmanos, apesar de continuar afirmando que a publicação das charges era legal de acordo com a lei dinamarquesa.
As charges foram republicadas por outros jornais, como o francês Liberation e o belga De Standaard.
Ocorreram protestos organizados por comunidades muçulmanas no mundo todo, incluindo capitais ocidentais como Londres.
Na Indonésia, os manifestantes entraram na recepção do edifício que abriga a embaixada dinamarquesa e alvejaram o escudo dinamarquês na entrada com ovos.
Nas cidades de Lahore e Multan, no Paquistão, manifestações reuniram centenas de estudantes. Outras manifestações ocorreram no Iraque, Egito e em várias cidades da Turquia.
Calma
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, pediu calma depois das manifestações de muçulmanos.
Na quinta-feira, o primeiro-ministro dinamarquês, Anders Fogh Rasmussen, disse à TV árabe Al Arabiya, baseada em Dubai, que lamentava pelo incidente, mas insistiu que seu governo não era responsável pelas publicações.
Uma das charges mostra o profeta Maomé vestindo um turbante com forma de bomba, enquanto em outro ele diz, numa nuvem, que o paraíso estava ficando sem virgens para os homens-bomba.
A tradição islâmica proíbe a representação de Maomé ou de Alá (Deus).
Rasmussen disse que a questão das charges ultrapassou os limites da Dinamarca e se tornou uma disputa entre a liberdade de imprensa Ocidental e os tabus islâmicos.
O primeiro-ministro dinamarquês discutiu a questão embaixadores de países de maioria muçulmana em uma reunião na sexta-feira
"O governo ou a nação dinamarquesa não podem ser considerados responsáveis por desenhos publicados em um jornal. O governo não pode pedir perdão em nome de um jornal livre e independente. Esta é uma disputa entre alguns muçulmanos e um jornal", disse Rasmussen depois da reunião.
O embaixador egípcio afirmou, entretanto, que Rasmussen deveria fazer um pedido de desculpas mais claro.
O mais importante clérigo xiita iraquiano, Aiatolá Ali Sistani, condenou a publicação das charges mas acrescentou que militantes islâmicos têm parte da culpa por distorcer a imagem do islamismo.
O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, pediu que os muçulmanos perdoem o incidente e disse que as charges não podem causar um choque entre culturas.
O cardeal Achille Silvestrini, no Vaticano, condenou as charges afirmando que a cultura ocidental precisa saber quais são seus limites.
O ministro do Exterior francês, Philippe Douste-Blazy, disse que os protestos dos muçulmanos são inaceitáveis mas também criticou as charges.