04 de fevereiro, 2006 - 15h21 GMT (13h21 Brasília)
O editor de um jornal jordaniano que republicou as charges do profeta Maomé que ofenderam muitos muçulmanos foi preso neste sábado.
Jihad Momani já havia sido demitido na sexta-feira e foi acusado de insulto religioso de acordo com a lei de imprensa do país.
O jornal em que Momani trabalhava, Shihan, publicou três das charges e um editorial que questionava se os protestos realizados por muçulmanos era justificado.
"Muçulmanos do mundo todo, sejam razoáveis", escreveu Momani. "O que traz mais preconceito contra o Islã, essas charges ou fotografias de seqüestradores cortando a garganta de um refém ou um homem-bomba que se explode durante uma cerimônia de casamento em Amã?".
Em carta de desculpas após sua demissão, Momani disse que não tinha a intenção de ofender ninguém.
As charges apareceram inicialmente no jornal dinamarquês Jyllands-Posten em setembro e foram posteriormente republicadas por jornais de países como Alemanha, Itália, Holanda e Espanha – todos dizendo estar exercendo seu direito à livre expressão.
Críticas
Também neste sábado, o Vaticano criticou a publicação das charges. Por meio de seu porta-voz, Joaquin Navarro-Vals, disse que o direito à liberdade de expressão não implica no direito de ofender crenças religiosas.
"É necessário ter respeito mútuo se os países querem viver em paz."
Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha também criticaram os jornais europeus que republicaram as charges.
Em Washington, o Departamento de Estado Americano descreveu os desenhos como ofensivos e acrescentou que não é aceitável incitar ódio étnico ou religioso.
O ministro das Relações Exteriores britânico, Jack Straw, disse que a liberdade de expressão não confere um comprometimento com o insulto.
Devido à publicação, comunidades muçulmanas vêm organizando protestos no mundo todo.
Neste sábado, centenas de palestinos realizaram manifestações na Cidade de Gaza. Protestos também ocorreram na capital da Dinamarca, Copenhague.
Na sexta-feira, outros protestos aconteceram, inclusive em capitais ocidentais como Londres. Na Indonésia, os manifestantes entraram na recepção do edifício que abriga a embaixada dinamarquesa e alvejaram o escudo dinamarquês na entrada com ovos.
Nas cidades de Lahore e Multan, no Paquistão, manifestações reuniram centenas de estudantes. Outras manifestações ocorreram no Iraque, Egito e em várias cidades da Turquia.
O Jyllands-Posten pediu desculpas por ter ofendido os muçulmanos, apesar de continuar afirmando que a publicação das charges era legal de acordo com a lei dinamarquesa.
Calma
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, pediu calma depois das manifestações de muçulmanos.
Na quinta-feira, o primeiro-ministro dinamarquês, Anders Fogh Rasmussen, disse à TV árabe Al Arabiya, baseada em Dubai, que lamentava pelo incidente, mas insistiu que seu governo não era responsável pelas publicações.
Uma das charges mostra o profeta Maomé vestindo um turbante com forma de bomba, enquanto em outro ele diz, numa nuvem, que o paraíso estava ficando sem virgens para os homens-bomba.
A tradição islâmica proíbe a representação de Maomé ou de Alá (Deus).
Rasmussen disse que a questão das charges ultrapassou os limites da Dinamarca e se tornou uma disputa entre a liberdade de imprensa Ocidental e os tabus islâmicos.
O primeiro-ministro dinamarquês discutiu a questão com embaixadores de países de maioria muçulmana em uma reunião na sexta-feira.
"O governo ou a nação dinamarquesa não podem ser considerados responsáveis por desenhos publicados em um jornal. O governo não pode pedir perdão em nome de um jornal livre e independente. Esta é uma disputa entre alguns muçulmanos e um jornal", disse Rasmussen depois da reunião.
O embaixador egípcio afirmou, entretanto, que Rasmussen deveria fazer um pedido de desculpas mais claro.
O mais importante clérigo xiita iraquiano, Aiatolá Ali Sistani, condenou a publicação das charges, mas acrescentou que militantes islâmicos têm parte da culpa por distorcer a imagem do islamismo.
O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, pediu que os muçulmanos perdoem o incidente e disse que as charges não podem causar um choque entre culturas.
O ministro do Exterior francês, Philippe Douste-Blazy, disse que os protestos dos muçulmanos são inaceitáveis, mas também criticou as charges.