08 de dezembro, 2005 - 00h31 GMT (22h31 Brasília)
A polícia do Egito matou seis pessoas a tiros durante protestos de eleitores islâmicos proibidos de votar na última rodada das eleições parlamentares, nesta quarta-feira.
Os policiais usaram balas de verdade e de borracha, além de bombas de gás lacrimogêneo para impedir que os partidários da Irmandade Muçulmana, um partido de oposição clandestino, chegassem às zonas eleitorais.
Os candidatos do partido concorrem ao Parlamento como independentes, e já conquistaram cerca de 20% das cadeiras.
Nove pessoas foram mortas em incidentes violentos relacionados às eleições, desde o início das votações, no último dia 9 de novembro.
Acusações
Os islâmicos afirmam que as táticas policiais têm o objetivo de limitar os ganhos da Irmandade e ajudar o Partido Nacional Democrático, do presidente Hosni Mubarak.
Os Estados Unidos criticaram as eleições desta quarta, afirmando que elas enviam a mensagem errada em relação ao compromisso do Egito com reformas políticas.
Os partidários da Irmandade Muçulmana atiraram pedras e coquetéis molotov contra tropas de choque da polícia.
Pelo menos duas mortes ocorreram em Damietta, norte do Egito, e há informações não confirmadas de que na cidade de Zagazig, no delta do Nilo, defensores do governo armados com facas e facões atacaram eleitores do lado de fora de vários centros de votação.
Um menino de 14 anos e um homem de 22 foram mortos na cidade de Qattawiya, nos arredores, e dois homens foram mortos a tiros na província de Dakahliya, também no delta do Nilo.
Além disso, 600 pessoas ficaram feridas em choques no Cairo, e 80 foram presas na cidade.
"Ninguém entra"
O porta-voz do Ministério do Interior, Ibrahim Hammad, disse que os pivetes" da Irmandade causaram os distúrbios em 10 zonas eleitorais.
Em Zagazig, um repórter da agência de notícias Associated Press testemunhou um confronto entre o candidato local da Irmandade e a polícia, do lado de fora de uma zona eleitoral.
"Vocês têm medo de quê? Por que não estão deixando eles entrarem?" gritou ele aos policiais que impediam a entrada de centenas de eleitores em um centro de votação no distrito de Nasiriyah.
Um juiz que chegou para supervisionar a votação protestou contra o bloqueio e conseguiu entrar, junto com algumas mulheres.
Um grupo de cerca de 25 mulheres tentou forçar sua entrada, mas elas foram impedidas pela polícia, enquanto o comandante gritava: "Ninguém entra aqui!".
Escolha difícil
Segundo a Irmandade, cerca de 1,4 mil de seus membros foram presos nos últimos dias, e muitos deles trabalhavam como cabos eleitorais.
Os candidatos independentes apoiados pela Irmandade já conquistaram 76 cadeiras do parlamento, cinco vezes mais do que nas últimas eleições.
A curto prazo, o partido de Mubarak vai controlar o parlamento, mas o futuro agora parece incerto.
As vitórias inesperadas da Irmandade vão tornar mais difícil para o governo continuar negando o reconhecimento legal ao partido.
Segundo analistas, a situação deixa os egípcios com a difícil tarefa de escolher entre um governo autocrático ou islâmico.