08 de junho, 2005 - 14h42 GMT (11h42 Brasília)
Alejandra Martins
É a pobreza e não questões raciais que estão dividindo a população boliviana e servindo de combustível para a atual crise no país, acredita o editor para América Latina da revista britânica The Economist, Michael Reid.
Para ele, está evidente que o processo de mudanças e democracia no país das últimas décadas não beneficiou a população mais pobre. Isso, somada à falência de uma estrutura política boliviana, torna difícil a solução do problema.
Reid acredita que a melhora da situação passa pela eleição de um novo presidente e uma negociação nacional.
Acompanhe os principais trechos da entrevista dada à BBC.
Esta é a segunda vez que o presidente Mesa apresenta sua renúncia. O modelo político boliviano falhou?
Em alguns aspectos sim, mas acredito que exista um vácuo quase total de poder, com um presidente que não manda em nada e um legislativo que não legisla sobre nada.
Por outro lado, nas ruas, existem grupos radicais de manifestantes e mesmo não sendo partidos políticos formais, acredito que cada grupo teme ser visto como menos radical que o outro, por isso não negociam.
Se olharmos para trás, penso que uma das causas é que este Congresso foi eleito em 2002 com o presidente Gonzalo Sánchez de Lozada, que foi obrigado a renunciar em outubro de 2003.
Os congressistas vêm de partidos tradicionais que perderam popularidade recentemente.
Outro aspecto do modelo que precisa mudar é que historicamente a Bolívia sempre foi um país muito centralizado.
O processo de descentralização, que teve início em meados dos anos 90, precisa se aprofundar.
O que acho que não está falhando do modelo é o elemento democrático. No passado, toda vez que havia este vazio de poder, houve um golpe político.
Deta vez, parece que não vai acontecer um.
A saída de Mesa não era uma surpresa para alguns analistas. Você acha que deveriam acontecer eleições para um novo Congresso?
Acho que Mesa vem enfrentando inúmeros problemas e duvido que algum outro teria feito muito melhor.
Mas ele tem pouca autoridade. Constitucionalmente, se as eleições forem antecipadas, seriam apenas para presidente e vice.
Se forem para depois de agosto, acredito que seriam gerais. Acredito que mesmo a eleição de um novo presidente daria um respiro e a possibilidade de que surja um presidente com mais autoridade para cumprir a lei, porque os bloqueios são ilegais.
Se você tivesse uma varinha mágica, o que seria melhor neste momento para a Bolívia?
Não existem varinhas de condão para a Bolívia neste momento, mas também não creio que Mesa estivesse blefando quando pediu demissão.
O que se precisa é um presidente com autoridade e poucos ajustes na Constituição.
Seria então boa a saída de mesa e que aconteça uma negociação até que se mude o congresso?
É difícil imaginar uma saída para o país a não ser que exista uma negociação entre as forças políticas.
Há um processo de fragmentação política e possivelmente territorial.
O que os grupos têm em comum é a imagem de que representam os mais pobres e excluídos.
O que estaria de pano de fundo nesta crise seria o fato de que a maioria dos bolivianos se sentem excluídos, apesar de duas décadas de reforma, e um elemento racial…
O que existe de fundo é a pobreza.
As reivindicações de grupos pobres, especialmente no altiplano, estão adquirindo um caráter racial, mas acho que o problema é a pobreza.
Não se pode vencer a pobreza por decreto, e a tragédia é que a única rota de saída da pobreza para o país é através do desenvolvimento da indústria de hidrocarbonetos.
Para terminar, quando as saídas políticas parecem esgotadas, negociar ainda é a solução?
Vai ser difícil, mas qual a alternativa?
Quais as alternativas?
Uma seria um processo de divisão territorial em que haveria uma demanda por independência, Santa Cruz, por exemplo, o que seria trágico.
Por outro lado, se houver um vazio de poder por muito tempo, acho que existiria pressão para um golpe, o que não resolveria nada.
A única solução é se tentar eleger um governo com autoridade e que existam negociações sobre os pontos básicos de discórdia.