29 de maio, 2005 - 23h57 GMT (20h57 Brasília)
Os franceses rejeitaram em um referendo realizado neste domingo a ratificação, pelo país, da Constituição da União Européia - o que pode lançar a organização em uma crise sem precedentes.
Segundo o resultado oficial, 54,87% dos franceses votaram pelo "não" à ratificação do documento, enquanto 45,13% votaram pelo "sim".
O resultado representa uma derrota para o governo francês, especialmente o presidente, Jacques Chirac, que vinha fazendo campanha pela ratificação.
Chirac, em discurso na TV francesa depois que ficou clara a derrota do "sim", disse que a decisão do povo francês é soberana, mas ressaltou que a rejeição da Constituição vai tornar difícil a defesa dos interesses da França na Europa.
O presidente indicou que uma decisão sobre o futuro do governo francês deve ser tomada nos próximos dias - dando a entender que podem ocorrer mudanças no gabinete.
Alto comparecimento
O comparecimento dos franceses às urnas foi de cerca de 70%.
A correspondente da BBC em Paris Caroline Wyatt disse que o resultado do referendo é um verdadeiro terremoto político, com reflexos que podem ser sentidos em toda a Europa.
No início desta segunda-feira, franceses favoráveis ao "não" se reuniram para comemorar na Praça da Bastilha em Paris, onde começou a Revolução Francesa.
Os franceses que rejeitam a Constituição da União Européia têm variados perfis políticos. Há desde socialistas até membros de partidos de direita.
Um dos líderes de direita que se opuseram à ratificação do documento, Philippe de Villiers, disse que a "Europa precisa ser reconstruída. Não há mais Constituição".
Villiers disse que Chirac precisa agora se afastar do poder ou dissolver o Parlamento.
Ansiedade e expectativa
O ministro das Relações Exteriores francês, Michel Barnier, disse que o resultado é "decepcionante". Ele ainda acrescentou que os outros países do bloco devem continuar com as votações, independentemente do resultado na França.
Nove dos 25 países-membros da União Européia já ratificaram a Constituição Européia.
Eleitores na Guiana Francesa, nas ilhas caribenhas de Martinica e Guadalupe, na Polinésia Francesa e em Saint Pierre e Miquelon, na costa do Canadá, votaram um dia antes.
As campanhas mostraram uma clara divisão na sociedade francesa entre os que acreditam que a Constituição vai garantir o poder de influência da França no coração da Europa e os críticos, que acham que o documento vai prejudicar a habilidade de o país proteger empregos, salários e condições de vida.
O governo e a oposição socialista haviam pedido aos eleitores que endossem a Constituição, embora alguns dissidentes socialistas tenham se juntado a comunistas e líderes sindicais em manifestações pelo "não" na sexta-feira.
O correspondente da BBC em Paris William Horsley diz que poucas vezes antes a França se mobilizou tanto para um debate sobre assuntos relativos à Europa.
Segundo Horsley, o resultado deste referendo está sendo aguardado com ansiedade e expectativa tanto pelos próprios franceses como pelos vizinhos da França na União Européia.
Outros países
A Constituição foi finalizada no ano passado depois de longas e difíceis negociações entre os governos dos países da organização.
O documento inclui uma carta de direitos fundamentais e prevê a criação de um serviço diplomático europeu e de um cargo de ministro do Exterior da União Européia.
A Constituição precisa ser ratificada por todos os países-membros, seja por meio de referendo ou por votação no Parlamento.
A França é o segundo país da União Européia a realizar um referendo. Na Espanha, a votação teve a vitória do "sim" e a Constituição foi então ratificada pelos legisladores do país.
A Alemanha aprovou o documento na sexta-feira.
Por outro lado, na Holanda – onde será realizado um referendo na quarta-feira – pesquisas indicam que o "não" está na frente nas intenções de voto.