31 de março, 2005 - 15h05 GMT (12h05 Brasília)
As agências de inteligência dos Estados Unidos sabem "pouco de forma preocupante" sobre os programas de armas de seus inimigos – entre eles a Coréia do Norte e o Irã –, afirma um relatório oficial publicado nesta quinta-feira.
Uma comissão formada para examinar as falhas na coleta de informações lista 70 recomendações para o novo diretor de Inteligência Nacional, John Negroponte. Se ele for aprovado pelo Senado para o cargo, vai supervisionar o trabalho de 15 órgãos de espionagem.
O estudo foi encomendado presidente George W. Bush após a polêmica sobre o programa de armas de destruição em massa do Iraque.
"Concluímos que a comunidade de inteligência estava completamente errada em quase todos os seus julgamentos antes da guerra sobre as armas de destruição em massa do Iraque", diz o relatório.
'Atores perigosos'
Num momento em que Washington pressiona os governos norte-coreano e iraniano em razão de suas intenções nucleares, o documento argumenta que "a comunidade de inteligência como um todo sabe preocupantemente pouco sobre os programas nucleares de alguns dos atores mundiais mais perigosos".
A comissão recomenda mudanças dramáticas para evitar novos erros da dimensão daquele feito no Iraque, onde as supostas armas usadas como justificativa para a guerra nunca foram encontradas.
A comissão que redigiu o estudo foi liderada pelo juiz da Corte de Apelações Laurence Silberman e pelo ex-senador republicano Charles
Robb.
Ao tratar da questão do Iraque, eles disseram que Bush e seu círculo mais próximo não exerceram pressão política sobre os analistas da CIA para que os relatos de inteligência justificassem um ataque contra o governo de Saddam Hussein.
"Os analistas que trabalharam com a questão das armas iraquianas concordaram que em nenhum momento a pressão política os levou a desvirtuar ou mudar os seus julgamentos analíticos", afirma o relatório.
O documento acrescenta, porém, que "é difícil negar a conclusão de que os analistas de inteligência trabalhavam num ambiente que não encorajava ceticismo com relação à opinião convencional" de que Saddam estava perigosamente se armando.
O porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, disse que o presidente americano concorda com a necessidade de uma mudança radical na comunidade de inteligência e que as sugestões do relatório são bem-vindas.
Enquanto isso, os críticos do governo já estão questionando o fato de que a comissão não encontrou evidências de manipulação por motivos políticos das informações sobre o Iraque.
As conclusões da comissão sobre o Irã e a Coréia do Norte não vão ser divulgadas ao público.
Mas, segundo o jornal The New York Times, um especialista que colaborou com os trabalhos diz que o texto conclui que a Coréia do Norte é, na prática, um "buraco negro", e que no Irã a situação não é muito melhor.
Os trechos que tratam dos dois países devem ser especialmente críticos do que os serviços de inteligência americanos sabem e não sabem a respeito deles.
E, nos bastidores, altos funcionários destas agências têm admitido que, por mais difícil que tenha sido conseguir dados sobre o Iraque porque o país era fechado, o Irã e principalmente a Coréia do Norte o são ainda mais.