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24 de janeiro, 2005 - 18h27 GMT (16h27 Brasília)

Mundo deve ficar atento a ideologias do ódio, diz Annan

O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, disse que a comunidade internacional deve ficar atenta contra todas as ideologias baseadas no ódio e na exclusão.

As declarações foram feitas em um discurso em sessão especial da Assembléia Geral da ONU para marcar o 60º aniversário da libertação dos prisioneiros do campo de extermínio nazista de Auschwitz, onde mais de 1 milhão de pessoas foram mortas durante a Segunda Guerra Mundial.

Annan disse que um "mal" como esse jamais deve ser permitido novamente.

Segundo ele, apesar da tragédia do Holocausto, o mundo não foi capaz de impedir outros genocídios.

Sudão

"O mundo, para a sua vergonha, fracassou mais de uma vez em impedir o genocídio – por exemplo no Camboja, em Ruanda e na ex-Iugoslávia", afirmou.

Annan advertiu sobre os "acontecimentos terríveis" em Darfur, no Sudão.

Ele pediu ao Conselho de Segurança que tome providências para lidar com a situação sudanesa após a entrega de um relatório, nesta terça-feira, avaliando se a morte de dezenas de milhares de pessoas no Sudão pode ser considerada um novo genocídio.

Segundo Annan, após receber o relatório, o Conselho de Seguranla vai decidir o que fazer.

"É uma responsabilidade muito solene", afirmou.

Origem da ONU

O secretário-geral disse que a ONU, que foi criada pouco depois do fim da Segunda Guerra, tem que fazer o que estiver a seu alcance para evitar o massacre realizado pela Alemanha nazista.

"Dois terços dos judeus da Europa – inclusive 1,5 milhão de crianças – foram assassinados", lembrou Annan. "Uma civilização inteira, que contribuiu com mais do que pôde para a riqueza cultural e intelectual da Europa e do mundo, foi arrancada pela raiz, destruída, jogada fora."

"É verdadeiro o provérbio que diz: 'Para o mal triunfar, basta que os homens bons não façam nada'."

Além dos 6 milhões de judeus, Annan recordou outros mortos pelo regime nazista de Adolf Hitler: os Roma (termo politicamente correto para os ciganos), poloneses e outros eslavos, prisioneiros de guerra soviéticos e portadores de deficiência física ou mental.

"Os campos não eram apenas campos de concentração. Não vamos usar o eufemismo daqueles que os construíram. O seu objetivo não era concentrar um grupo num lugar, mas sim exterminar povos inteiros."

Lições perdidas

Ministros das Relações Exteriores de vários países e o subsecretário da Defesa americano, Paul Wolfowitz, comparecem ao evento.

O chanceler de Israel, Silvan Shalom, afirmou que nunca saberá se a existência da ONU naquela época poderia ter evitado o Holocausto. Mas disse que a entidade e seus países-membros precisam assegurar "que isso nunca mais acontecerá outra vez".

O escritor e prêmio Nobel da Paz Elie Wiesel, sobrevivente do Holocausto, afirmou temer que as lições de Auschwitz tenham se perdido.

"Se o mundo tivesse ouvido, poderíamos ter evitado Darfur, Camboja, Bósnia e Ruanda", disse. "Pode ser tarde demais para os mortos, mas nunca é tarde para as crianças, as nossas e as suas."

Líderes de vários países irão ao campo de Auschwitz, na Polônia, nesta semana para um evento celebrando os 60 anos da liberação por tropas soviéticas.