15 de agosto, 2004 - 18h17 GMT (15h17 Brasília)
Edson Porto
Enviado especial a Caracas
O alto comparecimento e a lentidão no processo de votação levaram o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Venezuela a mudar o horário previsto para o fechamento das zonas eleitorias no país.
O fechamento da votação foi atrasado quatro horas, das 16h para 20h deste domingo (21h em Brasília).
Além disso, o conselho afirmou que o novo horário será o limite para que as pessoas entrem nas filas de votação. No entanto, quem estiver na fila poderá votar, mesmo que isso signifique estender o horário de funcionamento das mesas.
Alguns membros do CNE já falam que a votação pode ir até a meia-noite, embora não exista uma previsão oficial.
Em todo o país, desde a madrugada estão se formando filas enormes na grande maioria dos colégios eleitorais. Em Caracas, é possivel ver filas em dezenas de colégios onde está ocorrendo a votação.
A expectaviva do CNE é que o comparecimento nas urnas bata recordes.
"Historicamente, temos uma abstenção da ordem de 40%", afirma a técnica do CNE Mariela Major. "Hoje, pela participação que estamos vendo, nossa expectativa é de que a abstenção fique abaixo dos 20%."
Ainda segundo dados do CNE, não há problemas na grande maioria das zonas eleitorais do país.
Apenas um Estado, Anzuoategui, apresentou problemas nas instações das urnas, o que já teria sido resolvido – há 12.351 zonas eleitorais, e previa-se a utilização de 19.664 máquinas para o voto.
O resultado é esperado para duas ou três horas depois de fechadas as urnas.
Filas
Nas filas, os eleitores estão se mostrando calmos e resolutos.
"Acordei às 3h da manhã e cheguei na fila às 5h ", diz a advogada desempregada Lenys Briceño, eleitora de Chávez que vota no Manicômio, um dos bairros mais pobres da capital.
Às 9h da manhã ela ainda não havia votado e esperava permanecer na fila por pelo menos mais duas horas. Apesar disso, perguntada se iria desistir ela disse: "Claro que não. Fico até votar".
Para a comerciante e simpatizante da oposição Maria Gomes, que chegou a sua zona eleitoral na região nobre conhecida como Country Club às 7h30, o processo "está um pouco lento, mas estou na fila com muito gosto; vale o sacrifício".
Definição
O referendo decide se Chávez terminará seu mandato, que vai até o início de 2007.
O referendo encerra uma disputa que dura desde abril de 2002, quando, após um golpe que tirou Chávez do poder por dois dias, a oposição começou a pedir que o mandato do presidente fosse colocado à prova em um plebiscito.
A Constituição venezuelana, alterada pelo próprio Chávez em 1999, permite o plebiscito para todos os cargos eleitos a partir da metade do mandato.
Segundo dados da CNE, 14.037.000 eleitores podem votar neste domingo. Para vencer a disputa e tirar Chávez da Presidência, a oposição precisa ter no mínimo mais de 3.757.773 votos (o número obtido por Chávez nas eleições de 2000).
Para os partidários dos dois lados e especialistas, o plebiscito representa a escolha entre dois modelos políticos muito diferentes e uma oportunidade para diminuir a divisão em que o país está mergulhado.
"Os venezuelanos vão escolher (neste domingo) que modelo querem", afirmou Rodolfo Sanz, chefe do comando da campanha pró-Chávez.
"Acreditamos que o Estado tem um papel importante na construção do país e que precisamos acabar com a desigualdade que existe aqui."
A oposição, por sua vez, culpa o presidente pelos principais problemas econômicos e afirma que ela é a única opção para acabar com a polarização política.
"A Venezuela vai às urnas neste domingo em busca da unificação", disse Jesus Torrealba, um dos principais porta-vozes da Coordenação Democrática, movimento que reúne os partidos e grupos de oposição.
Torrealba credita a divisão à política do atual governo.
"Todo esse processo começou quando Chávez tomou uma série de medidas econômicas em 2001 sem consultar os atores sociais e econômicos", afirmou ele.
Para ele, o atual presidente venezuelano insuflou a divisão política "como parte de seu projeto para manter o poder".
Na opinião de Margarida Lopez Maia, historiadora e pesquisadora da Universidade Central, a principal vantagem do referendo é que ele vai deixar mais claro qual é o apoio efetivo que cada lado da disputa tem.
"Será um resultado nítido e isso talvez nos permita avançar", espera ela.
Apesar disso, Lopez Maia não crê que o referendo resolva os problemas políticos do país, mesmo que não ocorram problemas após o processo.
"Ainda assim, creio que poderemos começar um novo capítulo da nossa história."