14 de julho, 2004 - 10h29 GMT (07h29 Brasília)
Paulo Cabral
de Washington
A proposta de uma emenda constitucional para acabar de vez com o casamento entre pessoas do mesmo sexo nos Estados Unidos dividiu a sociedade americana em geral, até mesmo a comunidade homossexual do país.
Embora a grande maioria dos ativistas gays condenem os esforços do presidente George W. Bush para obter a emenda, há entre eles alguns que são contra o casamento homossexual e estão decepcionados com a insistência da comunidade em conseguir este selo de aprovação social.
Entre eles, muitos militantes formados na contracultura dos anos 60 e 70, com sua rejeição a casamentos, seja entre pessoas do mesmo sexo, seja entre pessoas de sexos diferentes.
"Não acho que o casamento seja necessariamente a melhor forma de organização da sociedade. Precisamos de novas formas de união para relações tanto de homossexuais quanto heterossexuais e não insistir em uma instituição que já mostrou muitas falhas", diz o histórico ativista gay americano Michel Bronski, hoje professor na Universidade de Dartmouth, em New Hampshire.
O Senado americano deve discutir e votar nesta quarta-feira os procedimentos para a apreciação da proposta de emenda constitucional. Os republicanos desistiram de apresentar a emenda em si para a votação quando perceberam que seria impossível conseguir os dois terços dos votos do Senado necessários para este tipo de mudança.
Eleições
Segundo analistas, os republicanos querem de qualquer modo colocar o tema em discussão em Washington para que os senadores John Kerry e John Edwards - os candidatos democratas à Presidência e à vice-presidência - sejam obrigados a tomar uma posição.
Os dois disseram que não param a campanha eleitoral para votarem no Senado se a discussão for apenas sobre questões de procedimentos. Os dois já declararam que são contra o casamento homossexual, mas que também se opõem à inclusão do tema na Constituição.
Michael Bronski não acredita que as teses contrárias ao casamento gay defendidas por ele - o ativista publicou diversos artigos sobre o tema na imprensa americana - atrapalhe a oposição à emenda.
"Minha rejeição é ao modelo de casamento que é defendido pelos conservadores. Mas se a opção do casamento é dada aos heterossexuais, não há motivo para tratar homossexuais de maneira diferente."
Defensores do casamento entre pessoas do mesmo sexo argumentam que o reconhecimento oficial é necessário para garantir direitos, como a extensão de plano de saúde a dependentes e reduções de impostos.
Prioridades
A advogada e ativista lésbica Kara Suffredini concorda com a necessidade de que estes benefícios cheguem a mais pessoas. Mas ela discorda que o casamento seja a única forma de obtê-los.
"Precisamos de fórmulas que ampliem os benefícios recebidos hoje apenas por pessoas casadas também para os relacionamento, homossexuais ou heterossexuais, que não envolvam casamento."
"As pessoas não deveriam ser obrigadas a se casar para serem beneficiadas pelo plano de saúde proporcionado pelo emprego do parceiro", afirma.
A ativista observa que a reação dos conservadores às discussões sobre casamento homossexual acabou atrapalhando muito o esforço dos que tentam criar alternativas ao casamento.
"No Estado de Ohio foi aprovada uma lei que não só proibiu o casamento homossexual como também bloqueou os benefícios públicos a parceiros não casados, sejam do mesmo sexo ou de sexos diferentes."
Parcerias domésticas
Michael Bronski concorda com a necessidade do Estado ter algum meio de reconhecer relações oficialmente.
Bronski sugere o modelo das "parcerias domésticas", que está em discussão na França.
O sistema permitiria o estabelecimento de uma união oficial entre pessoas que vivam juntas e dividam responsabilidades, independentemente do sexo e mesmo que não haja uma relação romântica entre eles.
"Um irmão e uma irmã solteiros morando juntos poderiam oficializar uma união assim", exemplifica Bronski.