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01 de julho, 2004 - 21h29 GMT (18h29 Brasília)

Caio Blinder
de Nova York

Julgamento de Saddam desvia atenção de americanos

As primeiras imagens de Saddam Hussein no tribunal em Bagdá puderam ser mostradas ao vivo na quinta-feira no noticiário matutino das grandes redes de televisão dos EUA, com os comentários dos principais apresentadores. Quase todos estavam no Iraque.

Falar da primeira aparição pública do ex-ditador desde sua prisão em dezembro foi um alívio para as estrelas do jornalismo americano.

Elas foram brilhar em Bagdá com a intenção de cobrir a transferência da soberania formal do país dos ocupantes americanos para o governo provisório, programada para a quarta-feira.

Surpreendida pela cerimônia secreta e antecipada para a segunda-feira, a televisão americana tinha algo espetacular para reportar na quinta-feira.

Para o governo Bush também é um alívio ver a atenção voltada para o ex-ditador e a lista das acusações criminais. Uma guerra parece fazer sentido quando o pivô da história é acusado de crimes contra a humanidade.

Em um país dividido sobre seu presidente e com a maioria dos americanos hoje avaliando que a guerra no Iraque não valeu a pena, Saddam Hussein é um ponto de consenso.

Praticamente todos concordam que o mundo está melhor com ele na cadeia, à espera do julgamento. Mais do que isto, a derrubada de um tirano é o saldo positivo que a Casa Branca pode apresentar.

As outras justificativas para a invasão perderam a legitimidade: as armas de destruição em massa não foram encontradas, a comissão independente que investiga os atentados do 11 de setembro concluiu que não há evidencias de colaboração entre o ex-regime de Saddam e a rede Al-Qaeda, e houve um incremento de incidentes terroristas no mundo desde a invasão de março do ano passado, como o Departamento de Estado foi finalmente forçado a admitir após dizer o contrário.

Mas como lembrou o jornal New York Times na edição desta quinta-feira, há muito em jogo com um julgamento de Saddam Hussein.

Há promessas e perigos. O julgamento pode dar um grau de legitimidade ao governo do Iraque e levar os americanos a insistir que os iraquianos estão cuidando de suas próprias questões, ou seja, o governo provisório não é uma marionete.

O perigo é que Saddam Hussein use o julgamento como sua plataforma política e que o processo judicial seja visto como uma farsa. As estrelas do jornalismo americano não se cansavam de comentar após a aparição pública do ex-ditador nesta quinta-feira que ele parecia cansado, mas o seu tom era desafiante.

Evidentemente a Casa Branca estima que tem mais a ganhar do que a perder com um julgamento de Saddam Hussein.

É melhor que o mundo e os eleitores americanos se concentrem mais nos crimes de um tirano do que em uma guerra mal explicada e um pós-guerra mal executado.

O excesso de cobertura do caso Saddam Hussein e o fascínio da opinião pública, porém, podem ser enganosos.

O ex-ditador tem competição cerrada de Michael Jackson e Kobe Briant.

Até escândalos relativamente triviais são cobertos de forma exaustiva. Saddam diz que o seu julgamento é teatro. Para os americanos, exatamente dez anos após o caso O.J. Simpson, uma sala de tribunal é o maior espetáculo da Terra.