17 de junho, 2004 - 14h30 GMT (11h30 Brasília)
Dos tradutores do português e do espanhol para o inglês, nos Estados Unidos, o papa é Gregory Rabassa.
Atribuem à tradução dele de Cem anos de Solidão não só o sucesso que o livro fez aqui, como a explosão de interesse pelo realismo mágico na década de 70.
Gregory Rabassa tem 82 anos de idade, quase 40 como tradutor e mais de 50 livros traduzidos na estante dele, mas tradução ainda paga mal. Não rende US$ 20 mil por ano.
Além de tradutor, ele é professor de literatura da City Universty of New York, a CUNY.
Gabriel García Márquez disse que Cem Anos de Solidão em inglês saiu melhor do que em espanhol.
Rabassa me disse que foi uma tradução fácil porque, quanto mais bem escrito o livro, mais fácil de ser traduzido.
Meus amigos latinos costumam debochar do português. Dizem que é espanhol pobre.
Mas o papa Rabassa diz que o português é muito mais rico do que o espanhol.
Acha a flexibilidade da nossa língua parecida com a do inglês, maleável e criativa, principalmente o português do Brasil.
Dos brasileiros, Rabassa traduziu Machado de Assis, Jorge Amado, Clarice Lispector, Afrânio Coutinho, Osman Lins - que ele achou difícil -, França Júnior, Dalton Trevisan e, mais recentemente, José Sarney, que ele achou divertido.
O professor Rabassa agora está lançando seu próprio livro: If This Be Treason: Translation and Its Dyscontents.
Na primeira parte ele faz uma digressão sobre tradução em geral e na segunda comenta sobre os textos e seus autores.
O segredo da tradução, diz ele não está no conhecimento da língua, mas na sensibilidade do tradutor.
Não é palavra por palavra nem frase por frase, mas são parágrafos, idéias e conceitos.
Mas com alguns escritores nem todo sentimento do mundo resolve.
É o caso de Guimarães Rosa e seu Grande Sertão: Veredas.
Ele cita o exemplo simples: “um demônio num redemoinho no meio da rua”.
O demônio está não só no meio da rua e do redemoinho, mas também no meio da própria palavra “reDEMOinho”.
É infernal e intraduzível, como Joyce.