11 de junho, 2004 - 09h10 GMT (06h10 Brasília)
Caio Blinder
de Nova York
As palavras de David Horovitz são duras, mas precisas. É esta combinação que torna o seu livro irresistível.
Um veterano jornalista inglês radicado em Israel, editor da respeitada publicação Jerusalem Report, Horovitz é um narrador amargurado dos sonhos estilhaçados da paz com os palestinos e dos dilemas políticos e morais que têm marcado os últimos três anos de conflito.
Este livro sobre Israel na era do terrorismo humaniza uma história complexa.
Horovitz chega a nos anestesiar com sua narrativa infatigável sobre a vida como uma loteria em Israel desde 2001.
É preciso estar lá para absorver o que é viver "normalmente" sob a nuvem constante das bombas suicidas.
Atos rotineiros e prosaicos como escolher um restaurante, um shopping center ou uma linha de ônibus criam dimensões dramáticas para um cidadão israelense.
Dá até para entender as razões que levaram muitos a viver em cavernas mentais ou simplesmente ignorar o noticiário.
Como diz Horovitz, esta é uma nação "atemorizada, entristecida e ferida''. Mas tem uma gente obstinada.
Tentação
O inglês Horovitz ama a terra que escolheu. Como tantos que optaram em fazer de Israel o seu lar, ele está determinado a ficar, apesar da tentação de retornar à paz de onde veio.
Suas conversas com pais israelenses sobre o futuro dos filhos são especialmente comoventes.
Estamos diante de pessoas comuns e suas escolhas de vida acabam se tornando extraordinárias.
Vamos deixar claro que Horovitz é um patriota israelense, mas não está cego às pessoas "do outro lado".
Embora o foco seja o impacto da Intifada nos seus compatriotas, Horovitz expressa abertamente simpatia pelos palestinos que "estão sofrendo sob as duras medidas de segurança impostas por Israel".
E ninguém é poupado no seu indiciamento. Ele questiona a política de sucessivos governos trabalhistas e do Likud que trouxe mais de 200 mil colonos para os territórios ocupados e o custo político e moral do "assassinato seletivo" de palestinos.
Mas os três anos de violência destruíram a confiança de Horovitz na liderança palestina.
No final das contas, ele se considera firmemente do lado do "novo consenso israelense", que culpa Yasser Arafat pelo colapso dos esforços de paz, e estima que a possibilidade de coexistência entre os dois povos está descartada por uma ou duas gerações.
Uma das grandes qualidades do livro é a ausência de uma agenda ideológica ou partidária da parte de alguém que ainda se considera esquerdista.
Nas palavras dele, "minha conexão com esta terra não é inspirada pela religião de uma forma muito profunda. É uma conexão que nasceu da minha consciência das raízes religiosas e históricas da minha família e do meu povo, da minha identificação ferrenha com o destino do meu povo e do meu desejo de ser parte da reconstrução da minha pátria".
Estamos, portanto, diante de uma narrativa passional e cândida, recheada de convicções e de uma avaliação crítica da terra que ele ama.
Horovitz é um escritor sionista e humanista. Como precisamos de gente com esta categoria.
Still Life with Bombers, de David Horovitz, Alfred Knopf, 266 páginas, US$ 25