04 de junho, 2004 - 08h06 GMT (05h06 Brasília)
Caio Blinder
de Nova York
Como disse o primeiro-ministro alemão, Gerhard Schröder, em entrevista à revista Focus, a sua presença nas celebrações, no próximo domingo, dos 60 anos do Dia D prova que "a Segunda Guerra Mundial definitivamente acabou". Mas outros conflitos continuam.
George W. Bush estará cercado nas praias da Normandia por dirigentes europeus como Schröder, o francês Jacques Chirac e o russo Vladimir Putin. São os homens que, em graus diferentes, sabotaram seus planos de guerra e de pós-guerra no Iraque.
As celebrações do Dia D trazem uma trégua e reforçam o mito sobre uma fraternidade transatlântica. Mas Franklin Roosevelt e Winston Churchill não toleravam Charles de Gaulle. O sentimento era mútuo.
É verdade que, em nome de uma causa comum (e necessidades), eles cerraram fileiras contra o nazismo. Bush espera o mesmo de Chirac e outros integrantes da resistência européia no caso do Iraque.
Blitzkrieg
A Normandia é uma das escalas de uma das viagens de Bush à Europa neste mês de junho. E, se incluírmos a reunião do G-8 nos Estados Unidos, a partir do dia 8, estamos diante de uma blitzkrieg do presidente americano para forjar algum tipo de apoio à sua politica no Iraque.
Esse é o cálculo de Bush para os encontros com os dirigentes. Junto à opinião pública, não dá para haver expectativas positivas. Homenagens aos heróis do Dia D são politicamente corretas, mas Bush é visto pela massa européia como o vilão que não merece ser enquadrado na galeria de Franklin Roosevelt ou mesmo Bill Clinton.
As indicações são de que Chirac e companheiros irão abafar as críticas públicas na maratona de encontros juninos, enfatizando o compromisso com a criação de um Iraque estável e seguro.
Mas, enquanto o Conselho de Segurança da ONU costura as revisões sobre a proposta de resolução anglo-americana sobre o Iraque, franceses e alemães deixam claro que não devem adotar nenhum papel significativo para ajudar os Estados Unidos a sair do buraco iraquiano.
Craig Kennedy, presidente do centro de estudos alemão Fundo Marshall, diz que o trunfo de Bush é o tamanho do buraco. Franceses e alemães não querem assumir grandes responsabilidades, mas tampouco incentivam uma retirada estratégica anglo-americana. Ficar no Iraque é ruim, sair é pior.
Lições da história
A blitzkrieg de Bush na Europa não é apenas diplomática. É também eleitoral. Ele quer polir sua imagem como um líder mais competente em relações externas do que o desafiante democrata em novembro, o senador John Kerry.
Na Europa, pode até haver uma torcida pelos democratas, mas, como lembrou nesta semana o New York Times, a conclusão em Paris é a de que a campanha de Kerry ainda não esquentou como se imaginava. Conclusão da história: europeus talvez precisem coexistir mais quatro anos com Bush.
E, para o presidente republicano, estão aí as lições da história. Ele precisa aprender a coexistir com Chirac e o resto da velha Europa. Churchill chamava Charles de Gaulle de Joana D' Arc e dizia que estava procurando alguns bispos para queimá-lo vivo.
Mas o estadista britânico e Roosevelt sabiam que precisavam daquele general cheio de si para forjar uma França forte no pós-guerra. Bush não pode se dar ao luxo de queimar Chirac e companhia.