24 de maio, 2004 - 20h46 GMT (17h46 Brasília)
Anelise Infante
de Madri
A temporada espanhola que terminou no domingo entrará para a história do Real Madrid como aquela em que tudo deu errado.
Nenhum título, quarta colocação no Campeonato Espanhol, recorde de derrotas, vexames internacionais. Para resolver este caos, o clube começou a cortar cabeças nesta segunda-feira mesmo.
A primeira foi a do técnico. Carlos Queiroz foi demitido e será substituido por José Antonio Camacho. O estilo cavalheiro e paternalista do treinador moçambicano não agradou à diretoria "merengue".
Camacho, que foi jogador do Real Madrid nos anos 80, é da escola linha dura. Costuma xingar jogadores e dirigentes em público e não só terá carta branca no vestiário, como dará a última palavra quanto a contratações.
Condição
Essa liberdade – que faltou a Queiroz – foi uma condição prévia imposta pelo treinador espanhol.
Camacho, que dirigiu o Benfica na última temporada, já havia sido contratado pelo Real Madrid há dois anos, mas rescindiu o contrato antes de começar a trabalhar porque o clube não o deixou escolher colaboradores e jogadores.
As contratações da atual diretoria – os "galácticos" Figo, Zidane, Ronaldo e Beckham – foram decisões pessoais do presidente do clube, Florentino Pérez.
Para a próxima temporada também haverá alguma chegada que chame a atenção – os mais cotados são o italiano Totti, da Roma, o francês Henry, do Arsenal, e o holandês Van Nistelrooy, do Manchester United –, mas desta vez com aval do técnico.
O clube também anunciou nesta segunda-feira a contratação do zagueiro argentino Walter Samuel, da Roma, por 25 milhões de euros (cerca de R$ 95,6 milhões) por cinco anos.
Recorde
A derrota na última rodada do campeonato nacional deu ao Real Madrid um novo recorde: em 102 anos de existência, jamais tinha perdido cinco partidas consecutivas no Campeonato Espanhol.
Para os jogadores, foi um problema de desgaste emocional.
Zidane chegou a comentar que "psicologicamente estava exausto" e Ronaldo, que "o melhor que poderia acontecer era terminar a temporada logo para esquecer".
O presidente do clube colocou a culpa no treinador.
"Foi um erro (contratar a Queiroz). Todos assumimos nossas responsabilidades, mas um time como o Real Madrid não pode terminar o ano dessa forma vergonhosa", disse Pérez.
Plantel reduzido
Queiroz sofreu críticas constantes dos dirigentes, mas também teve de enfrentar a falta de jogadores no plantel.
Quando assumiu o Real Madrid, o time contava com 28 jogadores. Em seguida ficou com 21.
Queiroz perdeu titulares como o meio-campo Makelele e reservas necessários como o atacante Morientes.
Quando começaram as contusões, não havia substitutos à altura nas categorias inferiores.
O cansaço físico também foi um fator importante. Uma excursão à Ásia na pré-temporada desgastou o time e esticou a temporada.
Para os dirigentes, era a forma de vender mais camisas e cobrir a folha de pagamento, que chega aos 90 milhões de euros anuais (cerca de R$ 344,5 milhões).
Sem controle
Outro problema para o treinador foi o descontrole do vestiário. Jogadores como Ronaldo e o inglês David Beckham viraram alvo de revistas e programas de TV dedicados a fazer fofocas.
O assédio chegou a tal ponto que o departamento de imprensa do Real Madrid impediu o acesso aos treinos dos jornais populares da Grã-Bretanha.
Ronaldo foi até obrigado a viajar machucado a uma concentração a 400 km de Madri para permanecer sob vigília.
Naquela ocasião, o presidente levou o time a outro Estado antes do clássico regional com o Atlético de Madrid para afastar a todos da vida noturna e pedir um pouco de discrição.
Ronaldo, que estava vetado para a partida, só viajou para não sair à noite na capital espanhola.
Mercenários
Para os torcedores, a culpa é do time.
Na partida de domingo, uma derrota por 4 a 1 em casa para a Real Sociedad, os atletas tiveram que ouvir vaias, palavrões e uma frase repetida muitas vezes durante o jogo: "jogadores mercenários".
Mas a diretoria também ouviu reclamações.
Torcedores pediam a saída do diretor-geral, Jorge Valdano, e o presidente Florentino Pérez anunciou sua renúncia nesta segunda-feira, para convocar novas eleições em junho, nas quais será candidato de novo.
No clube, há um rumor de que o ex-presidente Lorenzo Sanz estaria tentando negociar com Ronaldinho Gaúcho, do arquirrival Barcelona, para tê-lo como gancho eleitoral.
Seria uma forma de responder com a mesma moeda a Pérez, que trouxe Figo, que também jogava na equipe catalã, para ganhar a presidência em 2000.
Por ter ficado apenas com a quarta colocação no campeonato nacional, o Real Madrid terá que jogar a fase prévia da Liga dos Campeões da Europa, reduzindo as férias do time.
"Tudo bem", afirmou Ronaldo. "A gente não merece muitas férias mesmo."