Não sei quem cunhou a célebre frase "Todo cidadão tem o sagrado direito de torcer pelo Flamengo no meio da torcida do Vasco da Gama".
Como mais de 70% de nossos ditos memoráveis, leva todo o jeito de ser coisa do incrível espírito criativo e observador de Millôr Fernandes.
Se não foi, merece. Ou passa a ser.
Eu gostaria de adaptar o mote para o Reino Unido em vista de acontecimento ainda recente.
Bêbado e dormindo
Os fatos, nus e crus, são os seguintes: num dia quente de agosto do ano passado, em jogo do Middlesbrough (aquele do Juninho) contra o Arsenal, disputado pela Liga Premiê da Inglaterra, o cidadão Adrian Carr, de 28 anos, maquinista, foi preso e autuado sob a acusação de estar bêbado e dormindo durante o decorrer da contenda, que, aliás, terminou com a vitória do Arsenal por 4 a 0.
Se o nosso amigo maquinista, torcedor inveterado do chamado Boro – ao menos nas horas em que está acordado –, estivesse acompanhando o jogo teria se aborrecido menos.
Isso porque seu time, além de perder, custou-lhe perto de R$ 2 mil, uma vez que teve confiscado seu bilhete para todo o campeonato.
Mais: teve de pagar o equivalente a uns R$ 800 pelas despesas do processo, além de ficar dois anos sob uma espécie de liberdade condicional.
Sentença 'millôriana'
O juiz Michael Taylor, que esta semana julgou o caso, foi salomônico em sua decisão. Ou melhor dizendo, "millôriano".
Houve por bem que o caso jamais deveria ter chegado a um tribunal e, em sentença memorável, num país que vive sob o esquema do direito consuetudinário, declarou que todo cidadão inglês tem o direito de dormir durante o decorrer de um jogo de futebol, se assim lhe aprouver.
O fato do maquinista ter tomado, no período de 5 horas que antecedeu o jogo, perto de 3 litros de cerveja, não constitui crime ou sequer abuso alcoólico, decretou também sua senhoria.
O nível técnico da peleja não chegou sequer a ser cogitado. O que me parece muito justo.