Um crédito parcial deve ser dado às autoridades políticas e militares dos Estados Unidos. Elas advertiram que a situação no Iraque iria piorar antes de melhorar.
E como estão piorando.
Se vão melhorar, é algo bem mais incerto. A situação piora em razão da aproximação da transferência formal de soberania ao Iraque em 1º de julho. Os vários atores do cenário iraquiano tentam reforçar suas posições e testar os limites de sua atuação.
A contagem regressiva se acelera e fica cada vez mais evidente o artificialismo do cronograma. O plano de transferência da soberania atendeu, em grande parte, a cálculos da política doméstica americana.
A idéia era o presidente George W. Bush mostrar nos meses finais da campanha para as eleições de novembro que estava ocorrendo uma transição suave e controlada no Iraque.
Pelo menos em abril, essa transição não tem nada de suave e controlada. Não são apenas os bolsões de resistência da minoria sunita em cidades como Fallujah, mas o alastramento de uma insurgência da maioria xiita.
Nesse quadro de deterioração, os próprios iraquianos nomeados pelos ocupantes para cuidar das coisas a partir de julho assumem claramente que terão um papel muito limitado.
No domingo, foram indicados o ministro da Defesa e o chefe de inteligência.
Ambos disseram que a carga principal de responsabilidade continuará com os americanos e seus aliados muito além da entrega da soberania.
Vozes influentes (e bipartidárias) no Congresso expressam crescente preocupação com o rumo da transição. Os senadores Richard Lugar (republicano) e Joe Biden (democrata) advertem que com o risco do Iraque deslizar para a guerra civil, é preciso debater se faz sentido manter o cronograma de transferência da soberania formal.
A resposta do governo Bush foi imediata. O prazo segue de pé.
Mas para trás ficou a ilusão oficial de uma transição suave. O discurso das autoridades americanas tem duas mensagens neste começo de semana: vamos entregar o país para os iraquianos e não vamos abandonar o Iraque. Na suposta fase de desengajamento, cresce o envolvimento dos Estados Unidos.
Existe o empenho em definir os atos de violência dos últimos dias como isolados e fruto da ação de extremistas sunitas e xiitas.
Ironicamente, mais do que nunca, o septuagenário aiatolá Sistani (o mais importante líder xiita no Iraque) é definido como um moderado, em contraste ao jovem clérigo Moqtada Al-Sadr, um foco perigoso de mobilização e ressentimento à ocupação comandada pelos americanos.
As operações militares e políticas americanas são indisfarçavelmente mais duras. Há o empenho redobrado em cortar a erva daninha representada pela cidade de Fallujah (no coração do chamado triângulo sunita e local do incineramento e mutilação dos corpos de quatro americanos na semana passada) e neutralizar a ameaça de Al-Sadr.
E o general John Abizaid (do comando central) acena com a possibilidade do envio de mais tropas americanas para o Iraque. Não era este exatamente o plano de luta dos coordenadores da campanha de reeleição do presidente Bush.
Mas é bom se acostumar com os novos termos da transição iraquiana.