O assassinato do líder do Hamas, o xeque Ahmed Yassin, foi encomendado provavelmente para mostrar que o plano de retirada de Israel da Faixa de Gaza, parte de um primeiro estágio de "desligamento" israelense, é motivado por planejamento e não por fraqueza.
A implementação dessa estratégia requer, de acordo com a visão de Israel, ataques contra o Hamas e grupos semelhantes que iriam, caso contrário, declarar vitória se as tropas israelenses deixassem Gaza.
O Hamas e seus aliados vão provavelmente fazer declarações assim de qualquer maneira.
O fato de Yassin estar em uma cadeira de rodas não o protegeu contra um ataque do governo de Israel, que o considerava um líder terrorista cuja filosofia colocou muitos israelenses em cadeiras de rodas.
O ataque suicida duplo a bomba no porto de Ashdod, no sul de Israel, na semana passada, organizado a partir da Faixa de Gaza, deu a Israel uma razão para reagir mais imediatamente.
Arquitetado pelo primeiro-ministro Ariel Sharon, cujos instintos de ex-general estão sempre direcionados para ações dramáticas, o gabinete israelense decidiu a favor de um novo ataque ao líder do Hamas.
Sem perspectiva
Uma lição resumida que se pode tirar desses acontecimentos é que realmente não há uma perspectiva de paz, que o plano de paz para o Oriente Médio foi arquivado e que mais 20 anos de guerra é o cenário mais provável.
Essa certamente foi a minha impressão quando ouvi três ministros israelenses que recentemente passaram por Londres.
Eles eram o ministro da Defesa, Shaul Mofaz, o ministro das Relações Exteriores, Silvan Shalom, e o vice-primeiro ministro, Ehud Olmert.
Os três mencionaram diplomaticamente o plano de paz, elaborado internacionalmente e que prevê a paz entre Israel e um novo Estado palestino, cuja criação, aliás, deveria ter sido anunciada de forma provisória no fim do ano passado.
No entanto, os ânimos estavam mais amargos e ficou claro que a cúpula israelense havia embarcado em uma estratégia diferente.
O mapa para a paz virou uma estrada para lugar nenhum. Na sua ausência, Israel está propondo um mapa sozinho.
Ele envolve a retirada das tropas da Faixa de Gaza, excluindo possivelmente uma pequena faixa de terra ao longo da fronteira com o Egito com o objetivo de coibir a construção de túneis, a conclusão do muro que separa Israel da Cisjordânia, o abandono de alguns assentamentos na Cisjordânia e a defesa de outros.
O resultado seria um "desligamento" ou separação.
Como Ehud Olmert relatou: "Nós decidimos que não adianta esperar os palestinos implementarem a visão do presidente Bush do plano de paz. O tempo é essencial. O status quo precisa mudar e nós estamos prontos para fazer isso. Nós começaremos em Gaza e depois vamos para a Cisjordânia".
'Fraco'
O vice primeiro-ministro assinalou que o governo de Israel estava determinado a não ser chamado de fraco ao se retirar de Gaza. "Isso é diferente do Líbano", relatou Olmert referindo-se à retirada israelense da zona de segurança ou ocupação em 2000.
"A retirada criou uma impressão de fuga e um profundo senso de fraqueza."
O governo de Israel precisa criar um senso de confiança de que ele sabe o que está fazendo, enquanto se prepara para apresentar o seu plano para os americanos e depois oferecê-lo a um referendo em casa.
O assassinato do xeque Yassin é também um sinal de que o governo de Israel mais ou menos desistiu da Autoridade Palestina.
É também preciso saber que o Hamas deve ficar mais fortalecido depois da morte de seu líder. O grupo já declarou que o assassinato abriu os "portões do inferno".
A Autoridade Palestina está desesperada. Seu líder, Ahmed Korei, está pedindo desesperadamente uma intervenção dos Estados Unidos.
Israel deve ter decidido que uma "guerra de atrito" é a sua melhor forma de defesa.
Isso não é raro na história de Israel. O país travou uma longa guerra contra a Organização para a Libertação da Palestina até os acordos de Oslo, que deram uma breve trégua nos confrontos.
A guerra contra o Hamas também tem um longo caminho pela frente.