Promessas palestinas de vingança sangrenta, fúria no mundo árabe-islâmico, condenações generalizadas da comunidade internacional, advertências de uma escalada de violência e mesmo alguns sentimentos de desalento dentro do próprio gabinete do primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon.
Estas foram algumas reações à operação de "assassinato seletivo", em Gaza, do xeque Ahmed Yassin, fundador e líder espiritual do movimento extremista palestino Hamas, empreendida por Israel.
Até Jack Straw, ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, fiel aliado americano, qualificou a ação de inaceitável, embora tenha enfatizado o direito de Israel de se defender.
A reação em Washington, no entanto, não foi de condenação, em meio ao previsível apelo por calma e moderação a todas as partes envolvidas no conflito.
Na verdade, a reação americana foi defensiva.
Horas após a morte do xeque Yassin, a assessora de segurança nacional da Casa Branca, Condoleezza Rice, disse que o governo Bush não deu o sinal verde para o ataque e não recebeu aviso prévio.
Formalmente, o governo americano se opõe à política israelense do "assassinato seletivo", mas na prática existe um equilíbrio desajeitado.
No caso de Yassin, houve um certo beneplácito.
Rice ressaltou que "Hamas é uma organização terrorista e nós acreditamos que o xeque Yassin estivesse pessoalmente envolvido em planejamento terrorista".
Após uma hesitação inicial, a Casa Branca e o Departamento de Estado criticaram Israel pelo assassinato do xeque Yassin. A mudança de tom teve o objetivo de mostrar à comunidade internacional que o apoio americano a Israel não é ilimitado.
Na visão dos círculos do poder americano, uma ação espetacular como o assassinato de alguém que Israel considerava o "Osama Bin Laden palestino" talvez tenha desdobramentos positivos na arena diplomática.
A operação foi interpretada como um prelúdio de uma retirada unilateral israelense de Gaza.
Antes de sair, Sharon não pode mostrar fraqueza.
O outro componente da paz unilateral é a construção do muro de separação entre Israel e a Cisjordânia.
Planos grandiosos e multilaterais de busca de paz no Oriente Médio estão simplesmente mofando em meio à escalada de atentados suicidas palestinos e assassinatos seletivos israelenses.
Há uma fachada de movimentação diplomática.
No mês que vem, por exemplo, Bush deve conversar tanto com Sharon como com o presidente egípcio Hosni Mubarak sobre o plano de paz liderados pelos americanos, ou Rota da Paz.
Mubarak foi até convidado para aparecer no rancho do Texas.
É sinal de status, mas na realidade há pouca substância.
Nos seus discursos na campanha de reeleição, em que apregoa ter tornado o mundo mais seguro com suas reações aos ataques do 11 de setembro e a invasão do Iraque, o presidente Bush ignora o conflito israelo-palestino.
Mas a incapacidade americana para estimular progressos diplomáticos no conflito não é ignorada por israelenses e palestinos.
Para Sharon, o status quo é conveniente.
Ele sabe que não sofrerá pressões de monta da Casa Branca por concessões na temporada eleitoral americana.
E na visão palestina, Bush é simplista e considera o Hamas apenas mais um alvo na chamada guerra contra o terror.
E de fato, o círculo de violência vai se completando.
Pela primeira vez, o Hamas está também ameaçando os EUA com ações terroristas, com o argumento de que o apoio de Bush a Sharon tornou possível o assassinato de Yassin.
A mensagem eleitoral de segurança vendida por Bush poderá ficar mais vulnerável.