A infecção de porcos pelo vírus da gripe do frango aumentaria as chances de uma epidemia humana do vírus, segundo a infectologista Carmem Lúcia Pessoa da Silva.
"Isso sinalizaria uma oportunidade a mais de transmissão do vírus para humanos", afirmou Carmem Lúcia, pesquisadora da Universidade de Genebra, na Suíça.
A suspeita – ainda não confirmada – se deve à descoberta de vestígios do vírus na mucosa nasal de alguns suínos no Vietnã. Especialistas estão agora verificando se o vírus realmente entrou na circulação sangüínea dos animais.
Dezoito mortes humanas já foram atribuídas à gripe do frango, mas especialistas acreditam que em todos os casos as pessoas foram contaminadas pelos animais, e não por outros humanos.
Os temores de uma epidemia humana foram reforçados com a descoberta, por um grupo de cientistas britânicos, de que a Gripe Espanhola, que matou 20 milhões de pessoas ao final da Primeira Guerra Mundial, também teve origem em aves.
'Laboratório de vírus'
Carmem explica, no entanto, que, se o influenza aviário continuar restrito às aves, as possibilidades de uma epidemia humana são limitadas porque as pessoas precisam combinar dois vírus.
As aves só transmitem o influenza aviário, que só pode agir no homem combinado ao influenza humano (a gripe humana) – daí a campanha para vacinar as pessoas contra a gripe comum.
"É preciso que um indivíduo infectado com o vírus da gripe aviária esteja concomitantemente infectado por um subtipo de vírus humano", explica a infectologista.
Ou seja, para que uma pessoa passe a doença para outra, é preciso que o organismo do infectado sirva "como um laboratório de mistura de vírus", ou seja, combine os dois vírus, "gerando um novo subtipo de vírus que é diferente tanto do vírus da gripe aviário quanto do vírus que ele estava portando".
No caso dos porcos, diz a especialista, o animal também pode servir de "laboratório" para a combinação dos dois vírus por meio de uma mutação genética.
Brasil
A infectologista disse ainda que, se continuar entre as aves, o vírus dificilmente chegará ao Brasil.
A principal forma da transmissão a longa distância é através das aves migratórias, que são suscetíveis ao vírus, mas são altamente resistentes e suportam bem a infecção e podem portar o vírus durante vários dias. Elas funcionam como um reservatório.
Carmem Lúcia ressalta, no entanto, que dificilmente essas aves cruzariam o Oceano Atlântico, que serviria como uma "barreira geográfica" para a doença.
A doença já atingiu dez países asiáticos e levou ao sacrifício de 50 milhões de aves.