O resultado do Inquérito Hutton aparece com destaque na imprensa britânica e nos principais jornais europeus.
Enquanto vários jornais criticam a BBC por sua "reportagem falha" e por uma suposta "falta de cuidado necessário", outros questionam o uso das informações dos serviços de inteligência feito pelo governo e observam que a investigação não abordou a discussão sobre se a guerra foi justificada ou não.
O The Sun – que antecipou a conclusão do inquérito na sua edição desta quarta-feira – alardeia na manchete: "BBC em crise". O jornal, que tem a maior circulação do país, destaca a renúncia do presidente do conselho da BBC, Gavyn Davies, e especula que o cargo do diretor-geral da empresa, Greg Dyke, também está ameaçado.
Na Grã-Bretanha, o jornal The Daily Telegraph diz que o mundo político ficou surpreso pela forma como o governo foi inocentado. Um ministro não-identificado teria falado ao jornal sobre o alívio sentido no governo quando o relatório foi recebido. "Mal podíamos acreditar", teria dito.
A primeira página do The Independent é quase inteira branca e traz apenas uma pergunta no meio: "Camuflagem?". "Se o dossiê de setembro de 2002 que ajudou convencer a nação da necessidade urgente de uma guerra era mesmo confiável – pergunta o jornal – onde, exatamente, estão as armas de destruição em massa no Iraque?".
Já o Daily Express diz que o inquérito falhou ao não fazer nenhuma crítica ao governo e ao não abordar as questões mais importantes do dossiê sobre as armas de destruição em massa do Iraque.
'Triunfal'
O jornal francês Le Figaro afirma que Tony Blair "se saiu relativamente ileso", do inquérito e se permitiu até um "tom triunfal" em seu discurso no Parlamento após a divulgação do relatório de Hutton.
Ainda na França, o Libération diz em editorial que "Blair venceu por nocaute e a BBC foi à lona". Mas o jornal vê em todo o processo uma lição para a democracia moderna e uma inspiração para a política francesa.
Na Espanha, o El Pais concorda. Em editorial com o título "Blair Renascido", o jornal diz que o juiz Hutton salvou a reputação de Blair em uma semana como trágica para ele.
A perdedora na história, segundo o El Pais, seria a BBC, que teria falhado na sua obrigação de adotar os controles exigidos no caso de uma TV pública. Mas o El Pais acredita que o juiz foi mais exigente com a BBC do que com os serviços de inteligência britânicos.
New York Times
O jornal americano The New York Times também dedica editorial a Blair. Para o Times, embora o seu governo tenha sido "exonerado" da acusação de mentir sobre a ameaça iraquiana, o primeiro-ministro continua em terreno instável com o seu partido e a população britânica".
O austríaco Der Standard diz que ninguém saiu ileso do episódio. "A altamente respeitada BBC não checou (a reportagem) com o cuidado necessário".
Por outro lado, diz o jornal, Blair não pode mais "fingir" que o nome de David Kelly veio a público sem o seu conhecimento. Mas conclui: o relatório deixou de responder a questão central, que seria, na opinião do jornal, se o Iraque tinha ou não armas de destruição em massa.
Já o jornal alemão Der Tagesspiegel questiona a importância política do inquérito. "O relatório Hutton foi várias vezes confundido com um veredicto sobre a guerra do Iraque", enquanto que, para a publicação, o juiz Brian Hutton apenas decidiu sobre a disputa entre a BBC e o governo.
Para o Tagesspiegel, o relatório não melhora a imagem de Blair na Europa. "Aqui ninguém está emitindo um veredicto de inocente em relação à guerra no Iraque."
O suíco Le Temps diz que, embora o trabalho da BBC seja respeitado mundialmente, é "impossível não concordar" com a crítica feita por Hutton, de que "a hierarquia (da empresa) se engajou em uma luta de galos teimosa com o governo, sem se certificar da veracidade das informações do repórter."